segunda-feira, 24 de novembro de 2008
madrugada
Hoje começaste a trabalhar tão cedo...que parecia de véspera!
Realmente, as palavras ficam na memória, agarradas a ideias e ideais que nem sempre se conseguem explicar...não consegues dizer exactamente o que queres, mas queres dizer que, (a)pesar de tudo é bom viver esta vida, mesmo cravada de situações que não consegues alterar. Novos projectos, novas ideias, velhas ideias feitas novas, velhos projectos vestidos de novo, neste ciclo que não tem fim. Nem sabes como conseguimos ter energia para viver todos os dias, e não paramos por vezes de viver um dia, para descansar desta corrida alucinante que nos transporta pela vida fora.
Crês que as coisas quando acontecem, têm um motivo, uma ordem. Sempre pregaste que "A nossa vida será quilo que fizermos dela", mas crês que é inevitável aceitar alguma da ordem com a qual te tens cruzado. Discute-se muito, debatem-se temas, trocam-se ideias, negoceiam-se posições, mas o que tiver de ser, será!, ou não será assim?
Realmente, a vida não é dia sim, dia não, mas tens de admitir que há dias sim e dias não. Hoje foi um dia não, uma semana não, mas também sei que depois da chuva vem o sol, o que te traz uma serenidade expectante acerca do dia de amanhã. E a ideia de que podes afastar as nuvens e deixar mostrar a luz do sol com as tuas acções, traz-te ainda mais alento. Com a ideia mestra de que viverás um dia de cada vez. Todos viveremos um dia de cada vez. E em cada um dos dias devemos viver como se fosse o último, ou como gostaríamos que fosse, em cada momento, em cada passo de dança, em cada olhar, e em cada sorriso. Só escusávamos de acordar tão cedo...
Realmente, as palavras ficam na memória, agarradas a ideias e ideais que nem sempre se conseguem explicar...não consegues dizer exactamente o que queres, mas queres dizer que, (a)pesar de tudo é bom viver esta vida, mesmo cravada de situações que não consegues alterar. Novos projectos, novas ideias, velhas ideias feitas novas, velhos projectos vestidos de novo, neste ciclo que não tem fim. Nem sabes como conseguimos ter energia para viver todos os dias, e não paramos por vezes de viver um dia, para descansar desta corrida alucinante que nos transporta pela vida fora.
Crês que as coisas quando acontecem, têm um motivo, uma ordem. Sempre pregaste que "A nossa vida será quilo que fizermos dela", mas crês que é inevitável aceitar alguma da ordem com a qual te tens cruzado. Discute-se muito, debatem-se temas, trocam-se ideias, negoceiam-se posições, mas o que tiver de ser, será!, ou não será assim?
Realmente, a vida não é dia sim, dia não, mas tens de admitir que há dias sim e dias não. Hoje foi um dia não, uma semana não, mas também sei que depois da chuva vem o sol, o que te traz uma serenidade expectante acerca do dia de amanhã. E a ideia de que podes afastar as nuvens e deixar mostrar a luz do sol com as tuas acções, traz-te ainda mais alento. Com a ideia mestra de que viverás um dia de cada vez. Todos viveremos um dia de cada vez. E em cada um dos dias devemos viver como se fosse o último, ou como gostaríamos que fosse, em cada momento, em cada passo de dança, em cada olhar, e em cada sorriso. Só escusávamos de acordar tão cedo...
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
segredo
Sabes...vou contar-te um segredo. Chega aqui, encosta o teu ouvido à minha boca, ouve o meu murmúrio e o meu suspiro. Sente o quente das minhas palavras, guarda na memória a gramática do meu lamento. Deixa-te ficar, ouve o som do mar, e voa comigo para fora daqui. Sei que sabes o caminho, não conheço a paisagem, não me consigo orientar entre coordenadas baralhadas e latitudes alteradas. De que serve a vida se não for bilateral, dinâmica? Carregada de movimento, embuída em sonhos vãos e outros bons, tem a capacidade de tirar o tapete debaixo dos pés, naquela fracção de segundo em que olhamos um para o outro. Ainda tens o teu ouvido encostado à minha boca. E já passou tanto tempo.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
lema de vida
Bem, ontem aprendi o lema que mudou a minha vida. Isto de estarmos sempre a aprender é bom, pois permite-nos reciclar pensamentos, anular preconceitos, conhecer novas visões e encontrar novos estímulos. Basta que para isso tenhamos uma mente permeável às palavras, às ideias, às pessoas e aos lugares. Se já existiram pessoas que mudaram a minha vida, se já visitei lugares únicos que mudaram a minha forma de ser, se já parei para sentir o cheiro das flores, porque não abrir os ouvidos e ser criativa e deixar que o que os outros dizem possa fazer eco cá dentro? Por vezes as pessoas, criaturas seguras de si e dos outros, esquecem-se que podem tropeçar na vida, como podem tropeçar em outras pessoas, como podem tropeçar em situações embaraçosas ou positivamente surpreendentes. Pois que eu ontem tropecei em alguém e nas suas palavras, ontem gargalhei e cresci mais um pouco, porque a vida sem os outros não tinha graça nenhuma (pareço o tio Malato a falar!)!
Bom, a verdade, no fundo é que, segundo passei a acreditar ontem, não vale a pena passar pela vida com uma palas postas no olhos, até porque aquilo não dá jeito nenhum quando se quer olhar para trás. E como às vezes é tão importante olhar para trás, reflectir, equacionar e poder alterar ou alterar-nos. E segundo o nosso escritor Lobo Antunes, "uma pessoa que não tenha os seus mortos, não tem os seus vivos também." Quer ele com isto dizer que quem por nós já passou tem tanta importância como quem connosco vive, ou seja, vivos ou mortos, os amigos do passado constituem-nos como nós somos, e permitem-nos dar valor aos do presente, aos de hoje. A importância da história para a contemporaneidade. A importância da memória para a consciência de hoje. A importância de ontem ter passado no Chiado e ter lido esta frase, para hoje estar a dar valor à minha vida, aos meus amigos, família e à escrita. Aos de hoje e aos de ontem, porque as saudades fazem parte de mim.
Mas após a correria matinal e o frio da manhã, o cheiro a bolos quentes e o suor de quem corre atrasado, cheguei ao meu destino. E já tinha aprendido tanto no caminho!! E lá estava ele, bonacheirão, gordo, de óculos de massa preta e olhos postos em mim, a endiabrada (leia-se atrasada), a chegar tarde e más horas, cabelo nos olhos e faces rosadas. E de repente, ainda mal tinha entrado, recebo um sorriso, e uma sugestão provocatória: "pois então, agora que já chegou diga lá o que é que acha de mim." "Desculpe?", perguntei eu. "Com certeza, é só um segundo. Hmm.." E assim começou a conversa. Interminável, jocosa, jovial, cúmplice, divertida. Quando for professora quero ser assim! Hihih...
A auto-confiança traduz-se em auto-eficácia, e filosofias à parte, a vida é para ser vivida com um sorriso, pois quer queiramos ou não, simpatia gera simpatia, e antipatia gera antipatia. E no meio desta situação, naquele lugar, ouvi algo que me retrata, pois eu sou uma pessoa simples e gosto de me divertir.
O meu lema é muito simples, e não é só meu. É simplesmente uma brincadeira, uma gargalhada com a vida,um resultado da minha preguiça natural, do meu ritmo biológico alterado e teimoso, um espreguiçar matutino e um ronronar na cama pelo qual sou apaixonada. É que no fundo, desde ontem que acho que "mais vale de tarde, que nunca".
Bom, a verdade, no fundo é que, segundo passei a acreditar ontem, não vale a pena passar pela vida com uma palas postas no olhos, até porque aquilo não dá jeito nenhum quando se quer olhar para trás. E como às vezes é tão importante olhar para trás, reflectir, equacionar e poder alterar ou alterar-nos. E segundo o nosso escritor Lobo Antunes, "uma pessoa que não tenha os seus mortos, não tem os seus vivos também." Quer ele com isto dizer que quem por nós já passou tem tanta importância como quem connosco vive, ou seja, vivos ou mortos, os amigos do passado constituem-nos como nós somos, e permitem-nos dar valor aos do presente, aos de hoje. A importância da história para a contemporaneidade. A importância da memória para a consciência de hoje. A importância de ontem ter passado no Chiado e ter lido esta frase, para hoje estar a dar valor à minha vida, aos meus amigos, família e à escrita. Aos de hoje e aos de ontem, porque as saudades fazem parte de mim.
Mas após a correria matinal e o frio da manhã, o cheiro a bolos quentes e o suor de quem corre atrasado, cheguei ao meu destino. E já tinha aprendido tanto no caminho!! E lá estava ele, bonacheirão, gordo, de óculos de massa preta e olhos postos em mim, a endiabrada (leia-se atrasada), a chegar tarde e más horas, cabelo nos olhos e faces rosadas. E de repente, ainda mal tinha entrado, recebo um sorriso, e uma sugestão provocatória: "pois então, agora que já chegou diga lá o que é que acha de mim." "Desculpe?", perguntei eu. "Com certeza, é só um segundo. Hmm.." E assim começou a conversa. Interminável, jocosa, jovial, cúmplice, divertida. Quando for professora quero ser assim! Hihih...
A auto-confiança traduz-se em auto-eficácia, e filosofias à parte, a vida é para ser vivida com um sorriso, pois quer queiramos ou não, simpatia gera simpatia, e antipatia gera antipatia. E no meio desta situação, naquele lugar, ouvi algo que me retrata, pois eu sou uma pessoa simples e gosto de me divertir.
O meu lema é muito simples, e não é só meu. É simplesmente uma brincadeira, uma gargalhada com a vida,um resultado da minha preguiça natural, do meu ritmo biológico alterado e teimoso, um espreguiçar matutino e um ronronar na cama pelo qual sou apaixonada. É que no fundo, desde ontem que acho que "mais vale de tarde, que nunca".
terça-feira, 7 de outubro de 2008
fora de horas
"De cada vez que eu chegava, tu já lá estavas. Como se nunca tivesses saído. Ou como se tivesses saído e eu chegasse sempre atrasada. Fazias-me sentir atrasada. Mas na realidade, o que acontecia é que tu é que chegavas sempre cedo, e bastava que eu chegasse a horas para sentir que devia ter chegado antes. No fundo, tu é que não estavas correcto, pois nunca acertavas com a hora certa, a hora marcada. Às vezes chegar a horas também é cumprir. E chegar sempre demasiado cedo não é boa política, estás sempre fora de horas, assim.
Por isso já sabes. Não chegues demasiado cedo e não te atrases. Encontramo-nos à hora que o meu coração marcou."
Já estou fora de horas, mais uma vez. Texto escrito ontem, dia 06/10/2008, chega com um dia e meia dúzia de horas de atraso. As minhas desculpas.
Por isso já sabes. Não chegues demasiado cedo e não te atrases. Encontramo-nos à hora que o meu coração marcou."
Já estou fora de horas, mais uma vez. Texto escrito ontem, dia 06/10/2008, chega com um dia e meia dúzia de horas de atraso. As minhas desculpas.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
chave mestra
Cá estou eu de novo. A medo, aproximo-me da porta, sinto o coração pequenino, apertado, ensanguentado, tremem os joelhos marotos, vacilam os dedos das mãos, enquanto procuro a chave, no momento que antecede a minha entrada. Ainda não tenho a certeza de querer voltar a entrar, ainda não sei o que me espera por trás da porta, não consigo antever pelo pequeno buraco o que me espera, e hesito. Suspiro fundo, está na hora de abrir, desvendar, desbravar terreno e voltar a entrar em mim. Volto a sentir o cheiro do perigo, do desconhecido, o cheiro que me apaixona, o cheiro da descoberta. Volto a juntar letras na tentativa de que façam sentido, mesmo que eu não entenda que sentido têm. Volto a procurar, organizar, desorganizar, sentir, viver, tremer, sorrir. A vida sem aventura não tem a mesma piada, tu sabes. A vida sem surpresas não preenche, mas também não esvazia. Pelo menos sem avisar... Às vezes ainda penso se deveria cá voltar, mas, mesmo que este rentrée não corra bem, o improviso tomará conta de mim, e lá arranjarei maneira de me desenrascar.
Meto a chave à porta, ouço o ranger da fechadura, no silêncio que tomou parte do mundo. Range como rangem as portas antigas, com muito uso, de madeira velha com a tinta a estalar. Parece que vou entrar no velho sótão, recheado de boas memórias e outras más. Ouço finalmente o "clik" do dente da fechadura, que segurava a porta fechada e me mentinha protegida deste amontoado de memórias que vou encontrar, e quem sabe, reviver. Pela primeira fresta da porta, logo aparece a luz do outro lado, que me invade a cara e me faz cerrar os olhos. Que estranheza esta de voltar aqui, ao meu abrigo, ao meu castigo. Este cantinho de mundo sou eu mesma, eu própria, a minha pessoa em estado antigo e de cor sépia. Passa o tempo e nada muda, continuo emotiva, apaixonada, rebelde, desassossegada, curiosa. Pareço uma miúda que está a viver tudo pela primeira vez, quando as coisas ganham dimensões que as atiram para o baú dos segredos e para as memórias individuais.
Alguém deixou a janela aberta. Devo ter sido eu. Talvez porque quando saí não quisesse sair, nem fechar tudo. Nem trancar o passado ou as palavras. Não queria demorar tanto, mas não sabia quando voltava. Devo ter feito bem, em deixar a janela aberta, para que tudo pudesse respirar, desempoeirar, renovar, envelhecer. Passa por mim o vento enquanto faço força e cerro os dentes para abrir a porta pesada e sem óleo. Levanta-me o cabelo como se fosse a andar de mota, sem capacete, o que normalmente dá multa. E não dará multa também andar a vasculhar no meu próprio mundo? E se as minhas memórias me quiserem processar, por invasão da sua privacidade? Sai um pé à frente do outro, cuidadosos os dois, silenciosos, espantados. Ao fundo ouve-se a música, baixinha, de uma memória feliz que teima em não adormecer, em não envelhecer, em não se calar. Resistente, combatente, densa, recente, cá está ela, a sorrir-me como se eu nunca tivesse saído daqui, como se nunca a tivesse querido guardar e calar, no meu sótão secreto. Canta alto esta melodia. Tapei os ouvidos, mas ainda a consegui ouvir. Fechei bem a porta, mas ainda a conseguia ouvir. Tranquei com a chave, mas ainda a conseguia ouvir. Fugi deste sótão, mas ainda a conseguia ouvir. Chegou a mim e conduziu-me entre pirouettes e pequenos saltos até ela, pois tinha um segredo para me contar... e quando cheguei ao pé dela, sussurrou-me ao ouvido: "Sabes...eu gosto muito de ti...". E eu fiquei.
Meto a chave à porta, ouço o ranger da fechadura, no silêncio que tomou parte do mundo. Range como rangem as portas antigas, com muito uso, de madeira velha com a tinta a estalar. Parece que vou entrar no velho sótão, recheado de boas memórias e outras más. Ouço finalmente o "clik" do dente da fechadura, que segurava a porta fechada e me mentinha protegida deste amontoado de memórias que vou encontrar, e quem sabe, reviver. Pela primeira fresta da porta, logo aparece a luz do outro lado, que me invade a cara e me faz cerrar os olhos. Que estranheza esta de voltar aqui, ao meu abrigo, ao meu castigo. Este cantinho de mundo sou eu mesma, eu própria, a minha pessoa em estado antigo e de cor sépia. Passa o tempo e nada muda, continuo emotiva, apaixonada, rebelde, desassossegada, curiosa. Pareço uma miúda que está a viver tudo pela primeira vez, quando as coisas ganham dimensões que as atiram para o baú dos segredos e para as memórias individuais.
Alguém deixou a janela aberta. Devo ter sido eu. Talvez porque quando saí não quisesse sair, nem fechar tudo. Nem trancar o passado ou as palavras. Não queria demorar tanto, mas não sabia quando voltava. Devo ter feito bem, em deixar a janela aberta, para que tudo pudesse respirar, desempoeirar, renovar, envelhecer. Passa por mim o vento enquanto faço força e cerro os dentes para abrir a porta pesada e sem óleo. Levanta-me o cabelo como se fosse a andar de mota, sem capacete, o que normalmente dá multa. E não dará multa também andar a vasculhar no meu próprio mundo? E se as minhas memórias me quiserem processar, por invasão da sua privacidade? Sai um pé à frente do outro, cuidadosos os dois, silenciosos, espantados. Ao fundo ouve-se a música, baixinha, de uma memória feliz que teima em não adormecer, em não envelhecer, em não se calar. Resistente, combatente, densa, recente, cá está ela, a sorrir-me como se eu nunca tivesse saído daqui, como se nunca a tivesse querido guardar e calar, no meu sótão secreto. Canta alto esta melodia. Tapei os ouvidos, mas ainda a consegui ouvir. Fechei bem a porta, mas ainda a conseguia ouvir. Tranquei com a chave, mas ainda a conseguia ouvir. Fugi deste sótão, mas ainda a conseguia ouvir. Chegou a mim e conduziu-me entre pirouettes e pequenos saltos até ela, pois tinha um segredo para me contar... e quando cheguei ao pé dela, sussurrou-me ao ouvido: "Sabes...eu gosto muito de ti...". E eu fiquei.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
ninharias
Antes de mais, eu sou eu. Já chega de vontades emprestadas, conclusões que são de outros, estados de alma da feira e espaços partilhados. Chega para lá, preciso de espaço, tira isso do caminho, desvia aquilo e puxa isto. Numa azáfama de enquadramento, num desejo de sobreviver, andamos às turras, sem coragem de nos afastarmos. Ontem e hoje foi assim, num suspiro incontrolado, inegável a absurdo.
As coisas têm para nós o valor que lhes dermos, têm para nós a importância que lhes oferecemos e têm para nós a beleza que lhes pintamos.
Como um artista cria a obra, nós criamos a nossa vida, em nosso redor, os nossos gostos, as nossas companhias, e fazemos do nosso mundo a mais linda e cristalina cascata do Niagara. Devemos tratá-la com uma preciosidade, um tesouro que nos foi concedido e que devemos preservar, cultivar, proteger, e guardar. Mas se guardarmos todos os tesouros que temos, não vivemos nenhum, não usufruímos de o ter, não partilhamos com quem gostamos, não fazemos ninguém feliz para além de nós próprios. Então, não será melhor deixar a descoberto o tesouro, vivê-lo, gastá-lo, partilhá-lo? De que me serve a vida se não a viver? De quem me serve o amor, se não o posso sentir? De que me serve ter a chave, se estou proibida de entrar?
Já não há regras para nada, não há receitas ou prazos de validade. Tudo vai e volta à velocidade do vento, tudo muda e se transforma sem que nos apercebamos do que realmente se passa. Hoje um sentimento, amanhã uma dúvida, ontem era certeza, para o ano será memória. Ou não. Quem sabe hoje se amanhã é melhor? Quem sabe hoje se amanhã é diferente, sequer? Eu não sei. E não sei se quero saber. O controle total sobre o futuro tornaria a vida monótona, previsível, sem paixão, nem desafio. Deixaríamos de poder sentir um cheiro como se fosse a primeira vez que mergulhássemos juntos, deixaríamos de poder olhar uma surpresa com o espanto de quem nunca viu, deixaríamos de colher gargalhadas espontâneas nas esquinas dos amigos no café. Porque tudo era sabido, nada teria graça. E é por isso, por estes motivos que somos pequenos aos olhos do mundo, mas somos grandes, por termos a capacidade de nos apaixonar. Porque quando nos apaixonamos, nada do que está aqui escrito tem importância ou tem valor, pois tudo o que interessa é substancialmente maior que estas ninharias.
As coisas têm para nós o valor que lhes dermos, têm para nós a importância que lhes oferecemos e têm para nós a beleza que lhes pintamos.
Como um artista cria a obra, nós criamos a nossa vida, em nosso redor, os nossos gostos, as nossas companhias, e fazemos do nosso mundo a mais linda e cristalina cascata do Niagara. Devemos tratá-la com uma preciosidade, um tesouro que nos foi concedido e que devemos preservar, cultivar, proteger, e guardar. Mas se guardarmos todos os tesouros que temos, não vivemos nenhum, não usufruímos de o ter, não partilhamos com quem gostamos, não fazemos ninguém feliz para além de nós próprios. Então, não será melhor deixar a descoberto o tesouro, vivê-lo, gastá-lo, partilhá-lo? De que me serve a vida se não a viver? De quem me serve o amor, se não o posso sentir? De que me serve ter a chave, se estou proibida de entrar?
Já não há regras para nada, não há receitas ou prazos de validade. Tudo vai e volta à velocidade do vento, tudo muda e se transforma sem que nos apercebamos do que realmente se passa. Hoje um sentimento, amanhã uma dúvida, ontem era certeza, para o ano será memória. Ou não. Quem sabe hoje se amanhã é melhor? Quem sabe hoje se amanhã é diferente, sequer? Eu não sei. E não sei se quero saber. O controle total sobre o futuro tornaria a vida monótona, previsível, sem paixão, nem desafio. Deixaríamos de poder sentir um cheiro como se fosse a primeira vez que mergulhássemos juntos, deixaríamos de poder olhar uma surpresa com o espanto de quem nunca viu, deixaríamos de colher gargalhadas espontâneas nas esquinas dos amigos no café. Porque tudo era sabido, nada teria graça. E é por isso, por estes motivos que somos pequenos aos olhos do mundo, mas somos grandes, por termos a capacidade de nos apaixonar. Porque quando nos apaixonamos, nada do que está aqui escrito tem importância ou tem valor, pois tudo o que interessa é substancialmente maior que estas ninharias.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
hoje as palavras estão gastas
Acabaram-se as palavras, pouco resta para dizer. Ideia de um poema de amor, pela escrita de Eugénio de Andrade, presente em praticamente todas as colectâneas de poemas de amor deste país. As que descansam em estantes modernas, e as que correm mundo, nos corações de quem se lembra de ter amado um dia essas mesmas palavras.
Hoje seca a garganta, nascem suspiros do fundo do corpo, até as teclas já parecem gastas. Vista turva, falta de foco, sintomas de alguém que não sabe o que quer e se quer. Mês de Agosto, mês de férias, férias de nós próprios e de tudo o que nos compõe. Desleixe fácil, inerte, de quem se arrasta entre a cama e o sofá, a praia e o café. Assaltam-se bancos, nascem pessoas, come-se e dorme-se em todo o mundo.
Apenas aqui, nesta caixa forte, tudo se mantém conservado, imutável, frio. Por vezes, uma sopa quente e uma boa noite de sono resolvem impasses que nem os analgésicos sonham em curar. Chama-se mimo, à saudade de si próprio, à vontade de ter perto de nós quem ou o que nos aqueça, seja uma sopa, ou um abraço. Há pouco, restava uma sopa no frigorífico, à espera de alguém que não vive sem calor emocional, sem amor pelos legumes, sem umas meias quentes em noites de inverno.
Levantas-te e vais tratar de ti. Acordas e procuras viver. Sais e inicias viagem. Agora e sempre, é sempre tempo de andar para a frente, que atrás vem gente. A marcha dos desalinhados segue o rumo diário, mas tu foges, e sais do percurso pré-traçado, vives uma aventura só tua, e ficas sem saber se hás-de voltar, ou sair para sempre do pelotão. Quem sabe, não és tu próprio o comandante da tua vida, quem sabe as decisões que tomas não são simples opções, mas antes elas carregam sobre ti a responsabilidade, o poder. Cada uma das nossas escolhas traz-nos experiências que nos dão a ver que não somos criaturas tão pequenas como parecemos.
Mas desenganem-se os tolos: não somos heróis. Não caminhamos sempre sozinhos, não decidimos sempre sem influências, não amamos sempre sem ser amados. Somos parte de tudo, tu és parte de alguém, alguém há-se ser parte de outro alguém, numa rede tão complexa, interminável e replecta de enleios indesembaraçáveis. E é indesembaraçável que caíu hoje o sol, cresceu a lua, e aqui, na caixa forte, tudo na mesma, sem sentidos, porque hoje as palavras estão gastas. Adeus.
Hoje seca a garganta, nascem suspiros do fundo do corpo, até as teclas já parecem gastas. Vista turva, falta de foco, sintomas de alguém que não sabe o que quer e se quer. Mês de Agosto, mês de férias, férias de nós próprios e de tudo o que nos compõe. Desleixe fácil, inerte, de quem se arrasta entre a cama e o sofá, a praia e o café. Assaltam-se bancos, nascem pessoas, come-se e dorme-se em todo o mundo.
Apenas aqui, nesta caixa forte, tudo se mantém conservado, imutável, frio. Por vezes, uma sopa quente e uma boa noite de sono resolvem impasses que nem os analgésicos sonham em curar. Chama-se mimo, à saudade de si próprio, à vontade de ter perto de nós quem ou o que nos aqueça, seja uma sopa, ou um abraço. Há pouco, restava uma sopa no frigorífico, à espera de alguém que não vive sem calor emocional, sem amor pelos legumes, sem umas meias quentes em noites de inverno.
Levantas-te e vais tratar de ti. Acordas e procuras viver. Sais e inicias viagem. Agora e sempre, é sempre tempo de andar para a frente, que atrás vem gente. A marcha dos desalinhados segue o rumo diário, mas tu foges, e sais do percurso pré-traçado, vives uma aventura só tua, e ficas sem saber se hás-de voltar, ou sair para sempre do pelotão. Quem sabe, não és tu próprio o comandante da tua vida, quem sabe as decisões que tomas não são simples opções, mas antes elas carregam sobre ti a responsabilidade, o poder. Cada uma das nossas escolhas traz-nos experiências que nos dão a ver que não somos criaturas tão pequenas como parecemos.
Mas desenganem-se os tolos: não somos heróis. Não caminhamos sempre sozinhos, não decidimos sempre sem influências, não amamos sempre sem ser amados. Somos parte de tudo, tu és parte de alguém, alguém há-se ser parte de outro alguém, numa rede tão complexa, interminável e replecta de enleios indesembaraçáveis. E é indesembaraçável que caíu hoje o sol, cresceu a lua, e aqui, na caixa forte, tudo na mesma, sem sentidos, porque hoje as palavras estão gastas. Adeus.
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sábado, 2 de agosto de 2008
correntes de ar
Corre uma aragem fresca...saudável, esperada. Atravessa os livros esquecidos, lava prateleiras de recordações, destapa forografias antigas, leva consigo o cheiro da vela vermelha. Leva tanto e traz tão pouco. O suficiente para respirar melhor, na solidão cheia de coisas várias, baralhada e ofegante, capaz de rebentar e aguentar.
Passa o tempo e a brisa torna-se desconfortável, fresca demais, arrepiante, desconfortável. Fecha-se a janela, e lá fora, ao subir o estore, deslumbra-se um céu de um cor-de-rosa fascinante, vistoso, brilhante. Pára o tempo, fixa-se o olhar, cai uma lágrima tímida, de uma especial saudade secreta.
Estará, quem sabe, na altura de abandonar crenças em super-heróis desinteressados. Estará, provavelmente, na hora de desligar o botão da poesia, do ideal romântico, culto, e erudito. Estará, com certeza, a chegar o tempo de enfrentar o eternamente adiando, passo a passo, com confiança e sem olhar para trás. Estará, talvez, na hora de abrir de novo a janela...
Passa o tempo e a brisa torna-se desconfortável, fresca demais, arrepiante, desconfortável. Fecha-se a janela, e lá fora, ao subir o estore, deslumbra-se um céu de um cor-de-rosa fascinante, vistoso, brilhante. Pára o tempo, fixa-se o olhar, cai uma lágrima tímida, de uma especial saudade secreta.
Estará, quem sabe, na altura de abandonar crenças em super-heróis desinteressados. Estará, provavelmente, na hora de desligar o botão da poesia, do ideal romântico, culto, e erudito. Estará, com certeza, a chegar o tempo de enfrentar o eternamente adiando, passo a passo, com confiança e sem olhar para trás. Estará, talvez, na hora de abrir de novo a janela...
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
música
"A vida sem música seria um erro."
Nietzche
Entendo por música a dança dos sons, organizada, melódica, harmoniosa, efémera. Teleférico da alma, transporta em viagens longas e vibrantes o que conseguimos soltar. Acorda a imaginação, traz consigo imagens que cheiram a paz. Leva por caminhos verdes a memória do cérebro adormecido, enche de corpo o espaço que é nosso. A banda sonora da vida preenche o que as palavras não dizem, povoa o ar com aromas de sensações mal explicadas, afirma a ausência de querer, numa fuga conduzida por sons. Faz apetecer participar, dançar, soltar, rodopiar, ou simplesmente levitar. Quem dança vive a música, experimenta os sentidos do corpo, atravessa anos luz de coisas pequenas, ultrapassa o sentido da vida e torna-se imortal. Viver a música, senti-la, tocá-la, dançá-la, transporta para uma quinta dimensão o mundo terreno, pois a inteligibilidade é feita pelos trilhos da alma. Faz bater o coração, faz arrumar o ritmo, faz pulsar o que de mais íntimo temos para dar. Provoca personagens, provoca sentimentos, provoca lágrimas, por vezes. Caímos num mundo mágico que não se escreve, que não se vê, que só se sente e nos faz felizes.
A música aquece o espaço, como uma lareira aquece o ambiente frio, numa casa da montanha. Preenche o corpo, como um cachecol de riscas coloridas que cai sobre os ombros num fim de tarde de chuva, invernoso. Alimenta a alma, como as paisagens verdes dos parques naturais, estimula o Homem, como um olhar brilhante e um sorriso honesto, antecedem um abraço dos bons, daqueles.
A vida é para ser vivida com ousadia, com amor, com paixão, com conforto emocional, com música, com dança, com sabor, com risco, com sorrisos, com abraços, com cumplicidade, connosco, contigo.
Nietzche
Entendo por música a dança dos sons, organizada, melódica, harmoniosa, efémera. Teleférico da alma, transporta em viagens longas e vibrantes o que conseguimos soltar. Acorda a imaginação, traz consigo imagens que cheiram a paz. Leva por caminhos verdes a memória do cérebro adormecido, enche de corpo o espaço que é nosso. A banda sonora da vida preenche o que as palavras não dizem, povoa o ar com aromas de sensações mal explicadas, afirma a ausência de querer, numa fuga conduzida por sons. Faz apetecer participar, dançar, soltar, rodopiar, ou simplesmente levitar. Quem dança vive a música, experimenta os sentidos do corpo, atravessa anos luz de coisas pequenas, ultrapassa o sentido da vida e torna-se imortal. Viver a música, senti-la, tocá-la, dançá-la, transporta para uma quinta dimensão o mundo terreno, pois a inteligibilidade é feita pelos trilhos da alma. Faz bater o coração, faz arrumar o ritmo, faz pulsar o que de mais íntimo temos para dar. Provoca personagens, provoca sentimentos, provoca lágrimas, por vezes. Caímos num mundo mágico que não se escreve, que não se vê, que só se sente e nos faz felizes.
A música aquece o espaço, como uma lareira aquece o ambiente frio, numa casa da montanha. Preenche o corpo, como um cachecol de riscas coloridas que cai sobre os ombros num fim de tarde de chuva, invernoso. Alimenta a alma, como as paisagens verdes dos parques naturais, estimula o Homem, como um olhar brilhante e um sorriso honesto, antecedem um abraço dos bons, daqueles.
A vida é para ser vivida com ousadia, com amor, com paixão, com conforto emocional, com música, com dança, com sabor, com risco, com sorrisos, com abraços, com cumplicidade, connosco, contigo.
terça-feira, 29 de julho de 2008
nostalgia
A ressaca é um fenómeno estranho, que nos preenche a cabeça com as saudades do que vivemos, e com as dores das angúsias do dia seguinte. Devia haver uma pílula contra essas ressacas de bons momentos, que se tomava no dia seguinte, e as memórias esvaíam-se, as angústias atenuavam, as saudades dissolviam-se. Podia ser uma coisa do género do Gurozan, que minimizasse as dores psicológicas e emotivas, em vez das dores de cabeça e de corpo. Devia haver uma aspirina da alma que nos aliviasse as dores de coração ou então que nos prolongasse o efeito analgésico, como se de uma morfina se tratasse. Devia poder ser fácil manipular os sentimentos e o relógio, alterar as datas e os horários, transportar para hoje os dias de antes, e manter assim a serenidade mental e emocional, por forma a que a palavra nostalgia pudesse desaparecer do dicionário da porto editora. Devíamos poder parar o tempo e os sentimentos e não andar ao sabor dos dias e das noites mal dormidas. Devíamos poder assegurar o tempo, manter em nós o que nos faz bem, viver para sempre aquela fracção de segundo em que o tempo parou, a mesma que fez virar o mundo do avesso, que fez a terra girar mais rápido, e que fez perder o norte e acender o sinal verde. Dá-nos o mundo capacidades e oportunidades, um vasto leque de opções a cada segundo que passa, e porque não sabemos nós por onde ir? Fazer as malas e seguir pode ser tão difícil assim? Mil perguntas todos os dias, mil sensações todas as horas, mil silêncios todas as noites...será esta vida cheia de mil coisas, ou vazia de uma só?
quarta-feira, 23 de julho de 2008
caminhada
Tens razão, não me vou deixar vencer pelo cansaço. Não vou adormecer com medo do dia de amanhã, e receio que me faltem as forças, ou as vontades. Não vou deixar de me deixar levar, pela música, pelo canto do cisne, pela força da orquestra. A minha dança vive hoje, com a garra de quem voa, contigo. Crio-te em cada gesto, estico-me para te alcançar, altero os parâmetros e as escalas. Entre os actos nasce um novo personagem, uma nova roupagem, novas imagens e novos desejos de saltar, rodar, espreguiçar.
A noite cai e o cansaço aumenta, aparece a preguiça, de mãos dadas com a ternura. Deito a cabeça na almofada, e quando fecho os olhos, apenas tenho tempo para sentir a tua falta e já estou de novo a acordar, pronta para uma nova viagem, nova cumplicidade, nova roupagem, novas imagens e novos desejos de saltar, rodar, espreguiçar.
Vivemos um dia de cada vez, e cada um é uma vitória. Cada sorriso arrancado, um chá quente no Inverno; cada tarefa cumprida, um oásis no deserto; cada segredo contado, um abraço eterno e doce. Quando tudo terminar, chegarei a algum lado. E embora ainda não saiba onde, nem como, garanto-te, quando tudo acabar, estarei pronta para nova roupagem, novas imagens e novos desejos de saltar, rodar, espreguiçar.
Nessa altura, não vou parar, correrei mundo fora em viagens de sonho, comprarei vouchers de teleféricos para a lua, lançarei no ar o perfume de quem ama a vida, para te contagiar, e continuarei em frente, com passo firme de quem dança em cada caminhada, de quem tem uma nova roupagem, novas imagens e novos desejos de saltar, rodar, espreguiçar.
A noite cai e o cansaço aumenta, aparece a preguiça, de mãos dadas com a ternura. Deito a cabeça na almofada, e quando fecho os olhos, apenas tenho tempo para sentir a tua falta e já estou de novo a acordar, pronta para uma nova viagem, nova cumplicidade, nova roupagem, novas imagens e novos desejos de saltar, rodar, espreguiçar.
Vivemos um dia de cada vez, e cada um é uma vitória. Cada sorriso arrancado, um chá quente no Inverno; cada tarefa cumprida, um oásis no deserto; cada segredo contado, um abraço eterno e doce. Quando tudo terminar, chegarei a algum lado. E embora ainda não saiba onde, nem como, garanto-te, quando tudo acabar, estarei pronta para nova roupagem, novas imagens e novos desejos de saltar, rodar, espreguiçar.
Nessa altura, não vou parar, correrei mundo fora em viagens de sonho, comprarei vouchers de teleféricos para a lua, lançarei no ar o perfume de quem ama a vida, para te contagiar, e continuarei em frente, com passo firme de quem dança em cada caminhada, de quem tem uma nova roupagem, novas imagens e novos desejos de saltar, rodar, espreguiçar.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Outono
Passou um mês desde a útima vez. Onde estiveste, entretanto?
Dantes ainda ligavas, ainda visitavas, ainda perguntavas e procuravas. Agora deixaste de vir, de querer saber, de procurar e de perguntar.
Acomodaste-te à situação? Ter-te-á sido a ausência confortável? Ou caíu em ti uma culpa tremenda que não te deixa levantar? Conseguirás ainda seguir em frente e enfrentar as folhas do Outono a cair, enquanto na tua vida nada cai?
Dantes ainda ligavas, ainda visitavas, ainda perguntavas e procuravas. Agora deixaste de vir, de querer saber, de procurar e de perguntar.
Acomodaste-te à situação? Ter-te-á sido a ausência confortável? Ou caíu em ti uma culpa tremenda que não te deixa levantar? Conseguirás ainda seguir em frente e enfrentar as folhas do Outono a cair, enquanto na tua vida nada cai?
segunda-feira, 7 de julho de 2008
tic tac
Foge o tempo como foge o alento, a esperança que devia sossegar a alma, a mão que devia apoiar o coração, e aconchegar, para aquecer. Saem as palavras sem nexo, sem ordem, sem fio condutor, esbarram na garganta apertada que não deixa passar. Desarmam-se os dias, sem norte nem sul, caminhamos simplesmente porque pomos um pé à frente do outro. Enche-se de vazio o relógio, desencanta-se o pensamento, adormece a paixão, tropeça-se na inércia da dúvida, permanece imóvel o corpo e triste a alma.
Há dias em que nada parece valer, em que já não apetece brincar mais, em que emerge a vontade de gritar: "arrebenta a bolha!", e deixar ficar, deixar chorar, deixar andar e deixar fugir. Segue em frente o ponteiro, não hesitante, convicto de seu percurso às voltas, em voltas intermináveis e sufocantes, rotativas e repetitivas. Porque nunca pensou ele em andar para trás?
Todos nós já pensámos um dia em voltar atrás, em reverter a ordem das coisas e inverter os seus sentidos, todos nós já questionámos se o caminho que percorremos nos leva felizes a algum lado melhor. A felicidade está nos percursos, não nos fins, está no dia a dia, debaixo do nosso nariz, nas pequenas e boas coisas da vida, aquelas que nos povoam a memória e nos fazem dar gargalhadas anos depois. Veremos se se mantém a antiga acapacidade de gargalhar de forma desmedida, daqui a uns anos, ou daqui a uns dias, ou até daqui a umas horas, talvez surja a resposta, para esta pergunta que nunca foi respondida. Tic tac, tic tac...
Há dias em que nada parece valer, em que já não apetece brincar mais, em que emerge a vontade de gritar: "arrebenta a bolha!", e deixar ficar, deixar chorar, deixar andar e deixar fugir. Segue em frente o ponteiro, não hesitante, convicto de seu percurso às voltas, em voltas intermináveis e sufocantes, rotativas e repetitivas. Porque nunca pensou ele em andar para trás?
Todos nós já pensámos um dia em voltar atrás, em reverter a ordem das coisas e inverter os seus sentidos, todos nós já questionámos se o caminho que percorremos nos leva felizes a algum lado melhor. A felicidade está nos percursos, não nos fins, está no dia a dia, debaixo do nosso nariz, nas pequenas e boas coisas da vida, aquelas que nos povoam a memória e nos fazem dar gargalhadas anos depois. Veremos se se mantém a antiga acapacidade de gargalhar de forma desmedida, daqui a uns anos, ou daqui a uns dias, ou até daqui a umas horas, talvez surja a resposta, para esta pergunta que nunca foi respondida. Tic tac, tic tac...
quinta-feira, 19 de junho de 2008
bom dia, em playback
Andas fugida, andas ausente, andas às voltas e nunca estás em lado algum. Portas-te como um fantasma cumpridor da sua tarefa de existir, ou de não existir, e mais nada. Custa quando chega o anoitecer, custa quando o sol se esconde e com ele leva a alegria da luz e o brilho de um olhar sozinho.
Quando nasce o dia e se abrem as pestanas, solta-se o sorriso ensonado e molengão de quem rebola mais uma vez no leito e se tapa, como se jogasse às escondidas com o sol. O quente a bater na cara, a aquecer a alma, e preencher o espaço do quarto, a esconder-se por baixo dos lençóis assim que te distrais e levantas distraída o lençol tom de rosa. Diziam os antigos: "O frio também tem frio!", e é talvez por isso que ele se enfia dentro dos lençóis quando tem espaço para se esgueirar.
É como tu, que te esgueiras para a cama, te rebolas e espreguiças, que sonhas e sorris quando o sol te beija a cara de manhã.
Escorregas por entre os dedos das mãos como foge a água quando a tentas agarrar. Fria como a água, e transparente como sempre foste, cheiras a mar, danças como as ondas e brilhas quando o sol chega a ti.
Murmuras por entre a espuma, segredos que só tu sabes, trauteias canções de sempre numa memória onde te moves. Só tu conheces os refrões como ninguém, só tu reconheces as melodias com que sonhas, só tu podes cantar a tua vida, mas em playback, porque mais ninguém te pode ouvir.
Quando nasce o dia e se abrem as pestanas, solta-se o sorriso ensonado e molengão de quem rebola mais uma vez no leito e se tapa, como se jogasse às escondidas com o sol. O quente a bater na cara, a aquecer a alma, e preencher o espaço do quarto, a esconder-se por baixo dos lençóis assim que te distrais e levantas distraída o lençol tom de rosa. Diziam os antigos: "O frio também tem frio!", e é talvez por isso que ele se enfia dentro dos lençóis quando tem espaço para se esgueirar.
É como tu, que te esgueiras para a cama, te rebolas e espreguiças, que sonhas e sorris quando o sol te beija a cara de manhã.
Escorregas por entre os dedos das mãos como foge a água quando a tentas agarrar. Fria como a água, e transparente como sempre foste, cheiras a mar, danças como as ondas e brilhas quando o sol chega a ti.
Murmuras por entre a espuma, segredos que só tu sabes, trauteias canções de sempre numa memória onde te moves. Só tu conheces os refrões como ninguém, só tu reconheces as melodias com que sonhas, só tu podes cantar a tua vida, mas em playback, porque mais ninguém te pode ouvir.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
sempre soubeste...
Pára. Pára de correr de um lado para o outro. Pára de fugir ao tempo. Pára de viver isto e aquilo. Pára. Pára. Pára. Estás cansada. Estás exausta de pôr e tirar, organizar e desarrumar, orientar e perder. Pára de procurar a vertigem. Pára.
Este baloiço não te vai levar a lado algum. Vais andar entretida no vai-vém, sem olhar para trás, a sorrir com o vento a bater-te na cara e a esquecer-te que um dia vais ter de parar.
Pára de querer chegar a todo o lado, senta-te. Descansa. Respira. E escolhe.
Escolhe o caminho que te fizer feliz, escolhe se viras para aqui ou vais para ali, escolhe se queres ser tu ou outra coisa qualquer.
Um dia li que a única forma de seres realmente alguma coisa é nunca quereres ser tudo ao mesmo tempo.
Procura a essência da vida, pesquisa o mundo que te pertence, ambiciona crescer a cada dia que passa, mas não percas o norte, não fiques no meio, não baloices entre o agora e o depois. A vida não é dia sim, dia não, já to tinha dito.
Este baloiço não te vai levar a lado algum. Vais andar entretida no vai-vém, sem olhar para trás, a sorrir com o vento a bater-te na cara e a esquecer-te que um dia vais ter de parar.
Pára de querer chegar a todo o lado, senta-te. Descansa. Respira. E escolhe.
Escolhe o caminho que te fizer feliz, escolhe se viras para aqui ou vais para ali, escolhe se queres ser tu ou outra coisa qualquer.
Um dia li que a única forma de seres realmente alguma coisa é nunca quereres ser tudo ao mesmo tempo.
Procura a essência da vida, pesquisa o mundo que te pertence, ambiciona crescer a cada dia que passa, mas não percas o norte, não fiques no meio, não baloices entre o agora e o depois. A vida não é dia sim, dia não, já to tinha dito.
terça-feira, 10 de junho de 2008
ensosso ou insonso?
Às vezes olho para trás e não sei que pensar...todas as aventuras, todos os minutos bem passados, os que correram mal, as pessoas que conheci, as opções que tomei, as músicas que ouvi, as canções que cantei...tudo o que me constitui como pessoa, me completa e me constrói, são simplesmente as minhas opções, ou pelo contrário serão os presentes que a vida me ofereceu?
Quantas vezes deixei arrastar decisões, para que os outros as tomassem por mim, quantas vezes deixei de fazer algo, à espera que a vida se encarregasse de tal fardo?
No dia em que pensei que a minha vida ia acabar, senti-me sem forças, não gritei, não fugi, não bati com a porta...minha querida mãe, que me ajudaste nessa noite que parecia não ter fim! No dia seguinte, e daí para a frente, tudo mudou. Terei perdido o respeito pelos outros, terei eu desorganizado os padrões do certo e do errado, que culpa tenho eu de ter sofrido?
Um dia deito a cabeça no teu colo e conto-te tudo, ou talvez não seja preciso. As razões são de cada um, e o que valem para mim, não valem para o vizinho...
De vez em quando somos chamados à razão, e de repente, eu caí nas minhas e tu ficaste com as tuas...ter-nos-emos desencontrado? Estradas paralelas, bifurcações e cruzamentos, tudo isto numa vida cheia de caminhos errantes e desviados de sentido, não de sentimento.
Vale a pena pensar em tudo? Vale a pena tentar compreender e encaixotar a vida, como se fôssemos mudar de casa? Vale a pena equacionar os momentos, quando o tempo não é equacionável? Vale a pena etiquetar momentos, para sentirmos o arquivo organizado?
Ortega y Gasset dizia: "Eu sou eu e a minha circunstância". Cada um de nós tem os seus ingredientes, e é por isso que somos tão diferentes, tão misteriosos, tão mágicos. Eu posso ter o sal que te falta, tu podes ter a pimenta que me preenche... A vida que construí, tantas vezes sem querer, é tudo o que tenho, neste momento, aqui e agora. Amanhã talvez seja dia de ir ao supermercado...
Quantas vezes deixei arrastar decisões, para que os outros as tomassem por mim, quantas vezes deixei de fazer algo, à espera que a vida se encarregasse de tal fardo?
No dia em que pensei que a minha vida ia acabar, senti-me sem forças, não gritei, não fugi, não bati com a porta...minha querida mãe, que me ajudaste nessa noite que parecia não ter fim! No dia seguinte, e daí para a frente, tudo mudou. Terei perdido o respeito pelos outros, terei eu desorganizado os padrões do certo e do errado, que culpa tenho eu de ter sofrido?
Um dia deito a cabeça no teu colo e conto-te tudo, ou talvez não seja preciso. As razões são de cada um, e o que valem para mim, não valem para o vizinho...
De vez em quando somos chamados à razão, e de repente, eu caí nas minhas e tu ficaste com as tuas...ter-nos-emos desencontrado? Estradas paralelas, bifurcações e cruzamentos, tudo isto numa vida cheia de caminhos errantes e desviados de sentido, não de sentimento.
Vale a pena pensar em tudo? Vale a pena tentar compreender e encaixotar a vida, como se fôssemos mudar de casa? Vale a pena equacionar os momentos, quando o tempo não é equacionável? Vale a pena etiquetar momentos, para sentirmos o arquivo organizado?
Ortega y Gasset dizia: "Eu sou eu e a minha circunstância". Cada um de nós tem os seus ingredientes, e é por isso que somos tão diferentes, tão misteriosos, tão mágicos. Eu posso ter o sal que te falta, tu podes ter a pimenta que me preenche... A vida que construí, tantas vezes sem querer, é tudo o que tenho, neste momento, aqui e agora. Amanhã talvez seja dia de ir ao supermercado...
segunda-feira, 9 de junho de 2008
doce fim de tarde
Ironia das ironias...no fundo, a viagem foi mais longa, mais profunda.
Entre os kms que percorremos e o caminho que o coração percorre, caminhamos sem sacrifício durante horas, sem cansaço e com esperança. Caminhamos acompanhados pelo amor, com a força da segurança e sem pressa de chegar. Tem sido longo, este trajecto. Tem sido suavemente cada vez melhor. Abandonamos devagar, a cada segundo que passa a casa de antes, já sem olhar para trás. Com passos lentos, seguros, pensados, convictos de que lá fora está sol.
Espreitamos à janela e vemos as flores nascerem, vemos a relva a chamar por nós, e o mar à nossa espera. Não queremos correr, não queremos tropeçar, não queremos hesitar. Trazemos connosco um sorriso secreto, trazemos na alma a vontade de apanhar ar, o desejo de ver o mundo e a força de acreditar.
Já houve tempo de parar, já houve horas de querer ficar, já houve alturas de querer voltar. Hoje vamos para a rua, gritar, como diz o poeta, vamos passear. Ainda aqui estou e já vou tão longe...
E porque não paramos? Porque não descansamos? Porque não atestamos? Porque continuamos? Porque a vontade de seguir nos empurra. Porque as nossas pernas caminham sozinhas, porque o vento nos leva e não nos traz...Porque só a viver somos felizes.
E só se completa o puzzle quando encaixamos a última peça, por muito que já soubéssemos qual seria a imagem final. Porque o desenho da caixa não tira o prazer da construção, porque os percursos são apaixonantes.
Porque a conquista é uma batalha onde não se ataca, apenas nos rendemos. Tréguas. Ganhaste.
Entre os kms que percorremos e o caminho que o coração percorre, caminhamos sem sacrifício durante horas, sem cansaço e com esperança. Caminhamos acompanhados pelo amor, com a força da segurança e sem pressa de chegar. Tem sido longo, este trajecto. Tem sido suavemente cada vez melhor. Abandonamos devagar, a cada segundo que passa a casa de antes, já sem olhar para trás. Com passos lentos, seguros, pensados, convictos de que lá fora está sol.
Espreitamos à janela e vemos as flores nascerem, vemos a relva a chamar por nós, e o mar à nossa espera. Não queremos correr, não queremos tropeçar, não queremos hesitar. Trazemos connosco um sorriso secreto, trazemos na alma a vontade de apanhar ar, o desejo de ver o mundo e a força de acreditar.
Já houve tempo de parar, já houve horas de querer ficar, já houve alturas de querer voltar. Hoje vamos para a rua, gritar, como diz o poeta, vamos passear. Ainda aqui estou e já vou tão longe...
E porque não paramos? Porque não descansamos? Porque não atestamos? Porque continuamos? Porque a vontade de seguir nos empurra. Porque as nossas pernas caminham sozinhas, porque o vento nos leva e não nos traz...Porque só a viver somos felizes.
E só se completa o puzzle quando encaixamos a última peça, por muito que já soubéssemos qual seria a imagem final. Porque o desenho da caixa não tira o prazer da construção, porque os percursos são apaixonantes.
Porque a conquista é uma batalha onde não se ataca, apenas nos rendemos. Tréguas. Ganhaste.
domingo, 25 de maio de 2008
tinhas razão: afinal vim cá parar
Ao final da tarde, as cores misturavam-se no céu, em pedaços densos de nuvens desorganizadas. Umas muito fofinhas, outras muito lisinhas, umas alvas e outras castanhas e cinzentas. Pairavam a vários níveis, em diferentes altitudes e juntavam-se ou afastavam-se lentamente, ao sabor do vento. Algumas estavam tão baixinhas que ontem eu era capaz de as tocar, se me esticasse. Ou sonhei que era... Ontem o vento tinha cores e trazia consigo a voz da Pocahontas a desenhar o arco-íris em cada fim de núvem que permitia que 7 linhas de cores diversas descessem dessa altura até ao chão, como um escorrega enorme. E eram vários os arcos de cor, deslumbrantes, vivos, mutáveis e brilhantes, que o sol tímido me oferecia, lançando os seus braços por entre as núvens, e provocando recortes brancos sobre o azul celeste.
...muitas felicidades, uma salva de palmas!!
Depois era altura de correr para ti, riscar-te e rabiscar-te com histórias infinitas, que ontem houve tempo de mais para pensar. E era urgente ter-te dito tudo, era urgente partilhar contigo todas as memórias que ficaram na estrada grande. Ontem foi um dia longo, estava capaz de tudo. De observar, de passear, de inventar, de improvisar, de desviar. De procurar, de evitar, de hesitar, de pecar, de continuar.
...muitas felicidades, uma salva de palmas!!
Depois era altura de correr para ti, riscar-te e rabiscar-te com histórias infinitas, que ontem houve tempo de mais para pensar. E era urgente ter-te dito tudo, era urgente partilhar contigo todas as memórias que ficaram na estrada grande. Ontem foi um dia longo, estava capaz de tudo. De observar, de passear, de inventar, de improvisar, de desviar. De procurar, de evitar, de hesitar, de pecar, de continuar.
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tinhas razão: afinal vim cá parar
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Fernando Pessoa
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis!"
As palavras mágicas que dão cor ao vulcão da vida, a pitada de sal no topo da picanha, o último mimo antes de adormecer. Estes momentos inesquecíveis, estas coisas inexplicáveis e estas pessoas imcomparáveis valem pela vida, e é por isso que não quero nunca deixar de as viver e sentir.
As palavras mágicas que dão cor ao vulcão da vida, a pitada de sal no topo da picanha, o último mimo antes de adormecer. Estes momentos inesquecíveis, estas coisas inexplicáveis e estas pessoas imcomparáveis valem pela vida, e é por isso que não quero nunca deixar de as viver e sentir.
efeito arco-íris
Qual será a semelhança entre quem pensa que tem tudo e não tem nada, e quem pensa que não tem nada e tem tudo?
A ilusão, a falta de noção, a incapacidade de discernir as cores da vida, a imprecisão da miopia com que se olha para si próprio, a vontade compulsiva de fugir.
Em resumo, a confusão. A confusão entre o que é de facto importante ter ou não ter, a confusão entre o que é o tudo e é o nada, a confusão das prioridades todas que se alteram a uma velocidade vertiginosa, e voltam ao lugar onde estavam, e voltam a trocar posições, e de novo regressam à origem. Perdem-se as orientações, galga-se a razão e não se consegue dizer ao mundo que já pode parar, que já chega de carrocéis, dos choques violentos dos carrinhos, chega de cambalhotas e de ficar com a cabeça às avessas.
Que passamos a vida a colorir a vida, porque a luz faz a cor e a cor traz magia. Que o cheiro das flores é importante, que o brilho da neve escorregadia reflecte quando o sol nasce, que o som do piano também fala e que se ouve no silêncio a pulsação do movimento.
Há momentos em que tudo pára, e é nessas alturas, nessa fracção de segundo que a grande pergunta surge e se anseia pela resposta correcta, que amanhã já não é a mesma e que ontem nunca foi. Porque se é da condição humana o desassossego, a procura de mais, a vontade de descoberta e a luta pelo melhor, não será normal que apareçam perguntas sem respostas, suspiros sem segredos, olhares sem fim à vista? Porque a vida é uma sucessão de "agoras", serei mais logo a mesma deste momento? Enquanto houver estrada para andar, caminharei só ou desviarei para um cigarro? E porque teimamos em ir em frente, atrás dos outros, numa caminhada para um sítio que não conhecemos, numa marcha lenta para a meta, sem parar para olhar as papoilas, deixar que a chuva nos molhe e segredar ao vento que é bom viver?
A ilusão, a falta de noção, a incapacidade de discernir as cores da vida, a imprecisão da miopia com que se olha para si próprio, a vontade compulsiva de fugir.
Em resumo, a confusão. A confusão entre o que é de facto importante ter ou não ter, a confusão entre o que é o tudo e é o nada, a confusão das prioridades todas que se alteram a uma velocidade vertiginosa, e voltam ao lugar onde estavam, e voltam a trocar posições, e de novo regressam à origem. Perdem-se as orientações, galga-se a razão e não se consegue dizer ao mundo que já pode parar, que já chega de carrocéis, dos choques violentos dos carrinhos, chega de cambalhotas e de ficar com a cabeça às avessas.
Que passamos a vida a colorir a vida, porque a luz faz a cor e a cor traz magia. Que o cheiro das flores é importante, que o brilho da neve escorregadia reflecte quando o sol nasce, que o som do piano também fala e que se ouve no silêncio a pulsação do movimento.
Há momentos em que tudo pára, e é nessas alturas, nessa fracção de segundo que a grande pergunta surge e se anseia pela resposta correcta, que amanhã já não é a mesma e que ontem nunca foi. Porque se é da condição humana o desassossego, a procura de mais, a vontade de descoberta e a luta pelo melhor, não será normal que apareçam perguntas sem respostas, suspiros sem segredos, olhares sem fim à vista? Porque a vida é uma sucessão de "agoras", serei mais logo a mesma deste momento? Enquanto houver estrada para andar, caminharei só ou desviarei para um cigarro? E porque teimamos em ir em frente, atrás dos outros, numa caminhada para um sítio que não conhecemos, numa marcha lenta para a meta, sem parar para olhar as papoilas, deixar que a chuva nos molhe e segredar ao vento que é bom viver?
sábado, 17 de maio de 2008
Maldisposta
De volta às máscaras, às purpurinas, aos enfeites, ao glamour, à sedução do palco. De encontro aos figurinos de ilusão, aos penteados da época, aos sapatos apertados, sobem os nervos à flor da pele, nascem anseios e tremem as pernas, bate o coração mais forte, corre a vida nas veias.
A arte, como o amor faz-nos vibrar, faz-nos sentir vivos e contemplar a magia que há no ar! All you need is love... Ganho coragem e finjo não estar ansiosa. Arranjo o cabelo, visto o vestido preto, pinto as bochechas com cor suave, e espero por ti. Contracenamos como um só, eu actriz, tu actor, que ao sair do palco transportam consigo a carga da personagem...
A vida no teatro é quente, acendem-se projectores e projectam-se imagens, reais, ideais, geniais, banais. Pedaços de vidas inventadas. Como no teatro, o cinema constrói, para eu e tu, e pessoas como nós sonharem um dia fazer parte desse filme...
A arte, como o amor faz-nos vibrar, faz-nos sentir vivos e contemplar a magia que há no ar! All you need is love... Ganho coragem e finjo não estar ansiosa. Arranjo o cabelo, visto o vestido preto, pinto as bochechas com cor suave, e espero por ti. Contracenamos como um só, eu actriz, tu actor, que ao sair do palco transportam consigo a carga da personagem...
A vida no teatro é quente, acendem-se projectores e projectam-se imagens, reais, ideais, geniais, banais. Pedaços de vidas inventadas. Como no teatro, o cinema constrói, para eu e tu, e pessoas como nós sonharem um dia fazer parte desse filme...
domingo, 11 de maio de 2008
Intervalo
E qual a razão para que os olhos baixem, relaxem e se deixem abater?
E porque bate o coração mais devagar, numa cadência de adagio?
E porque se prende o olhar no infinito, fixo e sem reacção?
E porque pesa nos ombros e na alma o adeus?
E porque faz falta a magia na vida, nas veias e no olhar?
E porque param os violinos, se fecha o pano e já somos nós outra vez?
E porque deixamos de estar atrasados para tudo, de comer em 10 segundos, de nos olharmos e sermos cúmplices?
Porque será que de repente voltam as Coppélias rotineiras, os arranjos semanais e as horas no messenger?
Porque a vida é isto, porque sobe e desce como um baloiço, num movimento que faz sentido e faz parte, porque são precisas horas destas para voltar a querer viver as outras, aquelas. Estarei à tua espera... Até para a semana!
E porque bate o coração mais devagar, numa cadência de adagio?
E porque se prende o olhar no infinito, fixo e sem reacção?
E porque pesa nos ombros e na alma o adeus?
E porque faz falta a magia na vida, nas veias e no olhar?
E porque param os violinos, se fecha o pano e já somos nós outra vez?
E porque deixamos de estar atrasados para tudo, de comer em 10 segundos, de nos olharmos e sermos cúmplices?
Porque será que de repente voltam as Coppélias rotineiras, os arranjos semanais e as horas no messenger?
Porque a vida é isto, porque sobe e desce como um baloiço, num movimento que faz sentido e faz parte, porque são precisas horas destas para voltar a querer viver as outras, aquelas. Estarei à tua espera... Até para a semana!
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Sei que estavas à espera disto...
Sabes, quando chegamos ao final de uma saga, vivida com a emoção e o espanto perante a tela do écran, quando passas à última página do terceiro livro que devoraste sem hesitar, quando estás prestes a ler o último parágrafo, reconheces o sorriso incontrolável, a sensação de completude, de círculo fechado, e a antecipação incontrolável da última palavra dita ou escrita?
Pois talvez seja este o sentimento de ânsia que abafa a alegria e nos deixa nervosos, por saber o fim da história, ou por não querer que chegue ao fim. Partes os ovos, bates a massa, colocas no forno, constróis os degraus, compões a cobertura e por fim, lá está: o momento de pôr a cereja no topo do bolo.
Quando os processos são bons, os resultados são ainda melhores, tornas-te imune aos obstáculos, saltas barreiras e desvias-te dos imprevistos, contornas os problemas e trepas todos os muros que teimam em erguer. É por isso que é tão bom, é por isso que tem sido tão bom. Acabas com a gargalhada feliz da vitória, brindas aos sucessos e às zaragatas, arrumas em sacos velhos os trapos que já não servem e caminhas feliz, pela praia, com o vento a bater-te na cara, a cabeça cheia de ideias a fervilhar, a memória carregada de imagens e a sensação de liberdade que te faz trazeres contigo aquele sorriso, que só tu conheces.
Mas isto só acontece quando se fecha o livro, e ainda falta virar a última página...
Pois talvez seja este o sentimento de ânsia que abafa a alegria e nos deixa nervosos, por saber o fim da história, ou por não querer que chegue ao fim. Partes os ovos, bates a massa, colocas no forno, constróis os degraus, compões a cobertura e por fim, lá está: o momento de pôr a cereja no topo do bolo.
Quando os processos são bons, os resultados são ainda melhores, tornas-te imune aos obstáculos, saltas barreiras e desvias-te dos imprevistos, contornas os problemas e trepas todos os muros que teimam em erguer. É por isso que é tão bom, é por isso que tem sido tão bom. Acabas com a gargalhada feliz da vitória, brindas aos sucessos e às zaragatas, arrumas em sacos velhos os trapos que já não servem e caminhas feliz, pela praia, com o vento a bater-te na cara, a cabeça cheia de ideias a fervilhar, a memória carregada de imagens e a sensação de liberdade que te faz trazeres contigo aquele sorriso, que só tu conheces.
Mas isto só acontece quando se fecha o livro, e ainda falta virar a última página...
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os meus textos,
sei que estavas à espera disto...
sábado, 3 de maio de 2008
Viagens
O meu paradoxo de hoje foi motivo de reflexão: porque é que eu gosto tanto de ver o nascer do sol e ao mesmo tempo odeio levantar-me antes desse acontecimento?
800 Km depois, acordei da viagem, meio dormente e de cérebro parado. Pelo caminho reconheci o monte da Heidi, contei as árvores da fileira, retive a forma das nuvens. Ao pôr do sol, o tempo parou. E eu também. De um laranja esbatido por entre as pétalas de luz, a neblina tapava a bola amarela, deixando transparecer uma moldura dourada. Cabia lá tudo, em tão maravilhosa visão. Este é um previlégio de quem viaja, de quem pára para ver o mundo com olhos de ver. As horas passadas no carro são muitas vezes de introspecção, mas hoje foram de contemplação.
Igualmente bonito como o pôr do sol é o seu nascer que, no Inverno me acompanhou nestas aventuras de sábado. Momentos meus, em que a luz da manhã traz consigo o meu sorriso suave, de quem acorda com a brisa fresca da manhã, ao fim de um par de horas já acordado. Mais outro paradoxo. Ai... Que vida esta, cheia de contradições.
Pois que entre o nascer e o pôr do sol muita coisa aconteceu. A vida continua, enquanto eu estou ainda parada a 170 Km/hora. Ainda tenho essa imagem especada à frente dos olhos. A estrada grande está repleta de novas surpresas, hoje havia papoilas nas suas margens. Os campos e montes estão amarelos. Os pinheiros e eucapliptos estão mais verdes, graças ao belo Abril e suas águas mil. Afinal de contas, hoje foi um dia colorido.
O que mais me apaixona é poder sair, poder parar o carro e passear, como hoje. Que lindo dia, que liberdade, esta do viajante. É por ter todas estas cores e sabores, cheiros e formas que se torna divertido e inesgotável o mundo, assim quem o vê consiga ver tudo isto. Pois que então o problema será meu, ou dos meus olhos. Miopia detectada, que brilho tinha hoje a terra, que antes não se via? Mau Maria! Já não percebo nada disto!
Bom, amanhã não é dia de ver nascer o sol, até porque estas coisas têm dias marcados, e amanhã é domingo. Dia santo, há quem diga. Dia da Mãe. É por ela que vejo o mundo assim, pois foi ela, sem que o saiba, que me mostrou e fez sentir a importância da poesia, da verdade, do amor, da vida boa, do trabalho, do sorriso e de ver as cores das coisas, a sua essência, o seu interior, o seu valor. Faz boa dupla com o meu pai, mentor dos valores da justiça, do respeito, da responsabilidade e do pulso firme. Todos somos uma peça do puzzle...
Hoje parei no tempo, parei para ver o tempo, parei por ter tido tempo de parar sem olhar ao tempo. Porque ao sair deste lugar, vi outros que já não me lembrava, e foi bom viver esse bocadinho, lentamente, sem relógio, a uma velocidade vertiginosa por saber que o sol se ia pôr daí a um segundo...
800 Km depois, acordei da viagem, meio dormente e de cérebro parado. Pelo caminho reconheci o monte da Heidi, contei as árvores da fileira, retive a forma das nuvens. Ao pôr do sol, o tempo parou. E eu também. De um laranja esbatido por entre as pétalas de luz, a neblina tapava a bola amarela, deixando transparecer uma moldura dourada. Cabia lá tudo, em tão maravilhosa visão. Este é um previlégio de quem viaja, de quem pára para ver o mundo com olhos de ver. As horas passadas no carro são muitas vezes de introspecção, mas hoje foram de contemplação.
Igualmente bonito como o pôr do sol é o seu nascer que, no Inverno me acompanhou nestas aventuras de sábado. Momentos meus, em que a luz da manhã traz consigo o meu sorriso suave, de quem acorda com a brisa fresca da manhã, ao fim de um par de horas já acordado. Mais outro paradoxo. Ai... Que vida esta, cheia de contradições.
Pois que entre o nascer e o pôr do sol muita coisa aconteceu. A vida continua, enquanto eu estou ainda parada a 170 Km/hora. Ainda tenho essa imagem especada à frente dos olhos. A estrada grande está repleta de novas surpresas, hoje havia papoilas nas suas margens. Os campos e montes estão amarelos. Os pinheiros e eucapliptos estão mais verdes, graças ao belo Abril e suas águas mil. Afinal de contas, hoje foi um dia colorido.
O que mais me apaixona é poder sair, poder parar o carro e passear, como hoje. Que lindo dia, que liberdade, esta do viajante. É por ter todas estas cores e sabores, cheiros e formas que se torna divertido e inesgotável o mundo, assim quem o vê consiga ver tudo isto. Pois que então o problema será meu, ou dos meus olhos. Miopia detectada, que brilho tinha hoje a terra, que antes não se via? Mau Maria! Já não percebo nada disto!
Bom, amanhã não é dia de ver nascer o sol, até porque estas coisas têm dias marcados, e amanhã é domingo. Dia santo, há quem diga. Dia da Mãe. É por ela que vejo o mundo assim, pois foi ela, sem que o saiba, que me mostrou e fez sentir a importância da poesia, da verdade, do amor, da vida boa, do trabalho, do sorriso e de ver as cores das coisas, a sua essência, o seu interior, o seu valor. Faz boa dupla com o meu pai, mentor dos valores da justiça, do respeito, da responsabilidade e do pulso firme. Todos somos uma peça do puzzle...
Hoje parei no tempo, parei para ver o tempo, parei por ter tido tempo de parar sem olhar ao tempo. Porque ao sair deste lugar, vi outros que já não me lembrava, e foi bom viver esse bocadinho, lentamente, sem relógio, a uma velocidade vertiginosa por saber que o sol se ia pôr daí a um segundo...
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Não esperes por mim...
Não tenho tempo para ti, é, provavelmente, a pior frase que se pode dizer...mas tudo é contradito e contrafeito pelo meu desejo de te preencher, te pintar, te construir, te escrever.
Penso em ti várias vezes ao dia, também é muito má, pois apetece perguntar: o que fazes nos momentos em que não pensas em mim?
Ai, és tão absorvente..queria chegar a ti todos os dias, ter alma para te contar, ter tempo para aqui estar, ter forma de te fazer chegar aquilo que sinto, num só pensamento, ou em vários, uns atrás dos outros, em fila indiana. Arrebenta a bolha! Volto sempre que puder, não esperes por mim. Voltarei sempre que a loucura me permitir e a ressaca me obrigar, a cada grito teu, em mim, assim.
O eco multiplica os sons e o apelo é maior a cada segundo que passa, viciante, como quem descobre ou revive algo antigo, com a adrenalina do deslumbramento e a melancolia da memória. És como uma goma, um pequeno doce que me sacia e me acalma, será que isto algum dia vai acabar? Enquanto houver que dizer, enquanto o tempo o permitir, serei tua, por um só minuto que seja. E é por isso que aqui estou, porque é um regresso a casa, um colo, um mimo, aquele doce. Só não sei a que horas chego...
Penso em ti várias vezes ao dia, também é muito má, pois apetece perguntar: o que fazes nos momentos em que não pensas em mim?
Ai, és tão absorvente..queria chegar a ti todos os dias, ter alma para te contar, ter tempo para aqui estar, ter forma de te fazer chegar aquilo que sinto, num só pensamento, ou em vários, uns atrás dos outros, em fila indiana. Arrebenta a bolha! Volto sempre que puder, não esperes por mim. Voltarei sempre que a loucura me permitir e a ressaca me obrigar, a cada grito teu, em mim, assim.
O eco multiplica os sons e o apelo é maior a cada segundo que passa, viciante, como quem descobre ou revive algo antigo, com a adrenalina do deslumbramento e a melancolia da memória. És como uma goma, um pequeno doce que me sacia e me acalma, será que isto algum dia vai acabar? Enquanto houver que dizer, enquanto o tempo o permitir, serei tua, por um só minuto que seja. E é por isso que aqui estou, porque é um regresso a casa, um colo, um mimo, aquele doce. Só não sei a que horas chego...
sábado, 26 de abril de 2008
Biombos
Há momentos de biombos, como divisórias labirínticas que nem isso são a sério, mas que, com o seu efeito divisor, parece que são. Mais não são do que barreiras temporárias e transponíveis, como se de obstáculos se tratassem, etapas a ultrapassar.
Quando somos nós que os erguemos, está nas nossas mãos limpar o caminho e deixá-lo livre, para que possa ser percorrido, como é próprio dos caminhos.
Mas, quando eles são impostos, ficamos sem perceber o porquê, qual a visão de quem está do lado de lá, que duração terá esta cortina, crescerá ou diminuirá com o tempo? Esse sentimento de semi-recusa, ligeira má-vontade, como diz alguém com quem concordo, são como quando um adolescente sai à noite e diz que chega à 1h, mas chega às 3h e imediatamente, os pais erguem o sermão, levantam castigos e muitas vezes chamam-lhe desilusão. Isto nada mais é que uns pais com receio dos primeiros vôos dos filhos, com a dor do corte do cordão umbilical, a saudade que ainda não começou e já mata. E como resolver? E como curar sem alcóol puro, para arder menos? As simbioses são difíceis de desembaraçar, como os cabelos rebeldes dos anúncios da TV.
Todas as partidas são dolorosas...já te tinha dito isto?
É que custa sempre olhar para o lado e já lá não estares, mas faz-me sorrir quando olho para trás e tu sempre lá estiveste. É isso que torna as coisas tão difíceis, quando a partida é inevitável ou inadiável. Porque a vida não pára e é por isso que custa tanto ver e sentir os dias a passar e não conseguir eternizar momentos, parar o tempo, manter-te aqui.
Felizmente os textos dão sempre voltas, as palavras dançam e de repente mudam de lugar, de sentido, e tudo se transforma em qualquer coisa externa, mais suave. Assim dói menos.
Quando somos nós que os erguemos, está nas nossas mãos limpar o caminho e deixá-lo livre, para que possa ser percorrido, como é próprio dos caminhos.
Mas, quando eles são impostos, ficamos sem perceber o porquê, qual a visão de quem está do lado de lá, que duração terá esta cortina, crescerá ou diminuirá com o tempo? Esse sentimento de semi-recusa, ligeira má-vontade, como diz alguém com quem concordo, são como quando um adolescente sai à noite e diz que chega à 1h, mas chega às 3h e imediatamente, os pais erguem o sermão, levantam castigos e muitas vezes chamam-lhe desilusão. Isto nada mais é que uns pais com receio dos primeiros vôos dos filhos, com a dor do corte do cordão umbilical, a saudade que ainda não começou e já mata. E como resolver? E como curar sem alcóol puro, para arder menos? As simbioses são difíceis de desembaraçar, como os cabelos rebeldes dos anúncios da TV.
Todas as partidas são dolorosas...já te tinha dito isto?
É que custa sempre olhar para o lado e já lá não estares, mas faz-me sorrir quando olho para trás e tu sempre lá estiveste. É isso que torna as coisas tão difíceis, quando a partida é inevitável ou inadiável. Porque a vida não pára e é por isso que custa tanto ver e sentir os dias a passar e não conseguir eternizar momentos, parar o tempo, manter-te aqui.
Felizmente os textos dão sempre voltas, as palavras dançam e de repente mudam de lugar, de sentido, e tudo se transforma em qualquer coisa externa, mais suave. Assim dói menos.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Percursos
Segue o santo e vira à esquerda. Quando chegares ao fim da rua, estará embasbacado um novo desafio, como quem não tem quem lhe pegue. Que voltas e voltas podes dar, hás-de sempre lá ir parar. "Segue em frente!", ouves ao fundo. Sempre a caminhar, as pernas a tremer, avanças e vences as barreiras, esqueces o frio e não ligas à fome de mais. Demais. Já fizeste meio percurso, e quando pensas parar, agarras-te à vida, acreditas que és capaz, e olhas em frente. Está lá tudo, só precisas ter a certeza que vais encontrar. Vais chegar e a força vence o cansaço, ganhas vida de novo, enches o peito de ar e finalmente dás um abraço apertado. Passaste mais uma etapa. Parabéns. Eu sempre soube que ias conseguir.
domingo, 6 de abril de 2008
Kazuo Ohno
" A dança é sem palavras.
Mudanças de direcção, paradas, alternâncias de níveis, transferências de peso, torções;
Na dança um corpo pode ser vários corpos.
O corpo dançante exige outro olhar descerrado, aberto, viçoso.
Um olhar que dance com ele.
As formas silenciosas."
De ser assim, efémera e capaz de cativar
o olhar, esse olhar
e soltar o gesto, capaz de activar
o som, ou o silêncio
e deixar no ar o perfume, capaz de cativar
o sentido, e fazer-se luz
e olhar o outro, aquele, capaz de activar
o olhar, esse olhar.
Mudanças de direcção, paradas, alternâncias de níveis, transferências de peso, torções;
Na dança um corpo pode ser vários corpos.
O corpo dançante exige outro olhar descerrado, aberto, viçoso.
Um olhar que dance com ele.
As formas silenciosas."
De ser assim, efémera e capaz de cativar
o olhar, esse olhar
e soltar o gesto, capaz de activar
o som, ou o silêncio
e deixar no ar o perfume, capaz de cativar
o sentido, e fazer-se luz
e olhar o outro, aquele, capaz de activar
o olhar, esse olhar.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
As razões que movem o mundo
Há razões de sobra neste mundo para que se queira ser feliz, para que se lute e deslute, para amar as coisas pequenas e belas, para disfrutar perfumes indescirníveis aos distraídos, para sorrir ao sol, aos amigos, às letras, à música.
Há milhares de razões que podem servir para muita coisa, razões que desculpam as tristezas, razões que procuram desvendar mistérios, razões que fazem retratos lindos.
Depois, há aquelas razões que inventamos na esperança que justifiquem outras, na tentativa de empoeirar as imperfeições, no desejo ardente de procurar motivos para andar em frente, razões fictícias que movem mundos.
E depois, há aquela coisa, que não tem razão nenhuma, que não tem razão de ser, que não tem razões que a justifiquem, ou a ilibam da imensidão de fogo que a constitui, que por muitas razões que procuremos, não a conseguimos pôr em saquinho nenhum, porque ela transborda tudo...
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segunda-feira, 31 de março de 2008
Hmmm...sabiam??
O que eu REALMENTE gosto...
adoro rir, adoro dançar, adoro dar aulas, adoro "bominhas", adoro tomar banho antes de dormir, adoro acordar devagar, adoro pintar o cabelo, adoro viajar, adoro cerelac, adoro conduzir o meu carro, adoro bons abraços, adoro sonhar, adoro jantares românticos, adoro pintar, adoro ter borboletas na barriga, adoro fotografar, adoro baba de camelo, adoro conversar, adoro criar, adoro o meu cai-cai preto, adoro novos desafios, adoro ver filmes, adoro viver assim...
adoro rir, adoro dançar, adoro dar aulas, adoro "bominhas", adoro tomar banho antes de dormir, adoro acordar devagar, adoro pintar o cabelo, adoro viajar, adoro cerelac, adoro conduzir o meu carro, adoro bons abraços, adoro sonhar, adoro jantares românticos, adoro pintar, adoro ter borboletas na barriga, adoro fotografar, adoro baba de camelo, adoro conversar, adoro criar, adoro o meu cai-cai preto, adoro novos desafios, adoro ver filmes, adoro viver assim...
Prefácio
pois que hoje uma nova etapa começa, a minha intervenção social vai ganhar dimensões incomportáveis, o meu lado lunar vai ultrapassar todas as barreiras, e dar lugar à coscuvilhice de outros, pois se não é para isto que tornamos públicos os nossos mais íntimos pensamentos?? aqui está então a minha contribuição, parecida com a célebre máxima de que um homem só é um homem quando tiver plantado uma árvore, escrito um livro e feito um filho. fica público aqui e agora que, assumindo esta experiência como se da segunda tarefa se tratasse, apenas me falta a terceira, cujo prazo de concretização permanecerá adiado. pois que este "livro" é para mim, e pouco mais, encerro esta primeira página, ou prefácio, com o desejo de ter tempo e criatividade para o povoar com estórias e estorietas que não quero deixar esquecer. passemos então ao primeiro capítulo...
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