sábado, 26 de abril de 2008

Biombos

Há momentos de biombos, como divisórias labirínticas que nem isso são a sério, mas que, com o seu efeito divisor, parece que são. Mais não são do que barreiras temporárias e transponíveis, como se de obstáculos se tratassem, etapas a ultrapassar.
Quando somos nós que os erguemos, está nas nossas mãos limpar o caminho e deixá-lo livre, para que possa ser percorrido, como é próprio dos caminhos.
Mas, quando eles são impostos, ficamos sem perceber o porquê, qual a visão de quem está do lado de lá, que duração terá esta cortina, crescerá ou diminuirá com o tempo? Esse sentimento de semi-recusa, ligeira má-vontade, como diz alguém com quem concordo, são como quando um adolescente sai à noite e diz que chega à 1h, mas chega às 3h e imediatamente, os pais erguem o sermão, levantam castigos e muitas vezes chamam-lhe desilusão. Isto nada mais é que uns pais com receio dos primeiros vôos dos filhos, com a dor do corte do cordão umbilical, a saudade que ainda não começou e já mata. E como resolver? E como curar sem alcóol puro, para arder menos? As simbioses são difíceis de desembaraçar, como os cabelos rebeldes dos anúncios da TV.
Todas as partidas são dolorosas...já te tinha dito isto?
É que custa sempre olhar para o lado e já lá não estares, mas faz-me sorrir quando olho para trás e tu sempre lá estiveste. É isso que torna as coisas tão difíceis, quando a partida é inevitável ou inadiável. Porque a vida não pára e é por isso que custa tanto ver e sentir os dias a passar e não conseguir eternizar momentos, parar o tempo, manter-te aqui.
Felizmente os textos dão sempre voltas, as palavras dançam e de repente mudam de lugar, de sentido, e tudo se transforma em qualquer coisa externa, mais suave. Assim dói menos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ouve...

Dança como se ninguém te estivesse a ver, fecha os olhos e deixa-a pulsar cá dentro, guiando o teu corpo e alimentando a tua alma...

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Percursos

Segue o santo e vira à esquerda. Quando chegares ao fim da rua, estará embasbacado um novo desafio, como quem não tem quem lhe pegue. Que voltas e voltas podes dar, hás-de sempre lá ir parar. "Segue em frente!", ouves ao fundo. Sempre a caminhar, as pernas a tremer, avanças e vences as barreiras, esqueces o frio e não ligas à fome de mais. Demais. Já fizeste meio percurso, e quando pensas parar, agarras-te à vida, acreditas que és capaz, e olhas em frente. Está lá tudo, só precisas ter a certeza que vais encontrar. Vais chegar e a força vence o cansaço, ganhas vida de novo, enches o peito de ar e finalmente dás um abraço apertado. Passaste mais uma etapa. Parabéns. Eu sempre soube que ias conseguir.

domingo, 6 de abril de 2008

Kazuo Ohno

" A dança é sem palavras.
Mudanças de direcção, paradas, alternâncias de níveis, transferências de peso, torções;
Na dança um corpo pode ser vários corpos.
O corpo dançante exige outro olhar descerrado, aberto, viçoso.
Um olhar que dance com ele.
As formas silenciosas."

De ser assim, efémera e capaz de cativar
o olhar, esse olhar
e soltar o gesto, capaz de activar
o som, ou o silêncio
e deixar no ar o perfume, capaz de cativar
o sentido, e fazer-se luz
e olhar o outro, aquele, capaz de activar
o olhar, esse olhar.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

As razões que movem o mundo

Há razões de sobra neste mundo para que se queira ser feliz, para que se lute e deslute, para amar as coisas pequenas e belas, para disfrutar perfumes indescirníveis aos distraídos, para sorrir ao sol, aos amigos, às letras, à música.

Há milhares de razões que podem servir para muita coisa, razões que desculpam as tristezas, razões que procuram desvendar mistérios, razões que fazem retratos lindos.

Depois, há aquelas razões que inventamos na esperança que justifiquem outras, na tentativa de empoeirar as imperfeições, no desejo ardente de procurar motivos para andar em frente, razões fictícias que movem mundos.

E depois, há aquela coisa, que não tem razão nenhuma, que não tem razão de ser, que não tem razões que a justifiquem, ou a ilibam da imensidão de fogo que a constitui, que por muitas razões que procuremos, não a conseguimos pôr em saquinho nenhum, porque ela transborda tudo...