sábado, 3 de maio de 2008

Viagens

O meu paradoxo de hoje foi motivo de reflexão: porque é que eu gosto tanto de ver o nascer do sol e ao mesmo tempo odeio levantar-me antes desse acontecimento?
800 Km depois, acordei da viagem, meio dormente e de cérebro parado. Pelo caminho reconheci o monte da Heidi, contei as árvores da fileira, retive a forma das nuvens. Ao pôr do sol, o tempo parou. E eu também. De um laranja esbatido por entre as pétalas de luz, a neblina tapava a bola amarela, deixando transparecer uma moldura dourada. Cabia lá tudo, em tão maravilhosa visão. Este é um previlégio de quem viaja, de quem pára para ver o mundo com olhos de ver. As horas passadas no carro são muitas vezes de introspecção, mas hoje foram de contemplação.
Igualmente bonito como o pôr do sol é o seu nascer que, no Inverno me acompanhou nestas aventuras de sábado. Momentos meus, em que a luz da manhã traz consigo o meu sorriso suave, de quem acorda com a brisa fresca da manhã, ao fim de um par de horas já acordado. Mais outro paradoxo. Ai... Que vida esta, cheia de contradições.
Pois que entre o nascer e o pôr do sol muita coisa aconteceu. A vida continua, enquanto eu estou ainda parada a 170 Km/hora. Ainda tenho essa imagem especada à frente dos olhos. A estrada grande está repleta de novas surpresas, hoje havia papoilas nas suas margens. Os campos e montes estão amarelos. Os pinheiros e eucapliptos estão mais verdes, graças ao belo Abril e suas águas mil. Afinal de contas, hoje foi um dia colorido.
O que mais me apaixona é poder sair, poder parar o carro e passear, como hoje. Que lindo dia, que liberdade, esta do viajante. É por ter todas estas cores e sabores, cheiros e formas que se torna divertido e inesgotável o mundo, assim quem o vê consiga ver tudo isto. Pois que então o problema será meu, ou dos meus olhos. Miopia detectada, que brilho tinha hoje a terra, que antes não se via? Mau Maria! Já não percebo nada disto!
Bom, amanhã não é dia de ver nascer o sol, até porque estas coisas têm dias marcados, e amanhã é domingo. Dia santo, há quem diga. Dia da Mãe. É por ela que vejo o mundo assim, pois foi ela, sem que o saiba, que me mostrou e fez sentir a importância da poesia, da verdade, do amor, da vida boa, do trabalho, do sorriso e de ver as cores das coisas, a sua essência, o seu interior, o seu valor. Faz boa dupla com o meu pai, mentor dos valores da justiça, do respeito, da responsabilidade e do pulso firme. Todos somos uma peça do puzzle...
Hoje parei no tempo, parei para ver o tempo, parei por ter tido tempo de parar sem olhar ao tempo. Porque ao sair deste lugar, vi outros que já não me lembrava, e foi bom viver esse bocadinho, lentamente, sem relógio, a uma velocidade vertiginosa por saber que o sol se ia pôr daí a um segundo...

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