Antes de mais, eu sou eu. Já chega de vontades emprestadas, conclusões que são de outros, estados de alma da feira e espaços partilhados. Chega para lá, preciso de espaço, tira isso do caminho, desvia aquilo e puxa isto. Numa azáfama de enquadramento, num desejo de sobreviver, andamos às turras, sem coragem de nos afastarmos. Ontem e hoje foi assim, num suspiro incontrolado, inegável a absurdo.
As coisas têm para nós o valor que lhes dermos, têm para nós a importância que lhes oferecemos e têm para nós a beleza que lhes pintamos.
Como um artista cria a obra, nós criamos a nossa vida, em nosso redor, os nossos gostos, as nossas companhias, e fazemos do nosso mundo a mais linda e cristalina cascata do Niagara. Devemos tratá-la com uma preciosidade, um tesouro que nos foi concedido e que devemos preservar, cultivar, proteger, e guardar. Mas se guardarmos todos os tesouros que temos, não vivemos nenhum, não usufruímos de o ter, não partilhamos com quem gostamos, não fazemos ninguém feliz para além de nós próprios. Então, não será melhor deixar a descoberto o tesouro, vivê-lo, gastá-lo, partilhá-lo? De que me serve a vida se não a viver? De quem me serve o amor, se não o posso sentir? De que me serve ter a chave, se estou proibida de entrar?
Já não há regras para nada, não há receitas ou prazos de validade. Tudo vai e volta à velocidade do vento, tudo muda e se transforma sem que nos apercebamos do que realmente se passa. Hoje um sentimento, amanhã uma dúvida, ontem era certeza, para o ano será memória. Ou não. Quem sabe hoje se amanhã é melhor? Quem sabe hoje se amanhã é diferente, sequer? Eu não sei. E não sei se quero saber. O controle total sobre o futuro tornaria a vida monótona, previsível, sem paixão, nem desafio. Deixaríamos de poder sentir um cheiro como se fosse a primeira vez que mergulhássemos juntos, deixaríamos de poder olhar uma surpresa com o espanto de quem nunca viu, deixaríamos de colher gargalhadas espontâneas nas esquinas dos amigos no café. Porque tudo era sabido, nada teria graça. E é por isso, por estes motivos que somos pequenos aos olhos do mundo, mas somos grandes, por termos a capacidade de nos apaixonar. Porque quando nos apaixonamos, nada do que está aqui escrito tem importância ou tem valor, pois tudo o que interessa é substancialmente maior que estas ninharias.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
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