quinta-feira, 19 de junho de 2008

bom dia, em playback

Andas fugida, andas ausente, andas às voltas e nunca estás em lado algum. Portas-te como um fantasma cumpridor da sua tarefa de existir, ou de não existir, e mais nada. Custa quando chega o anoitecer, custa quando o sol se esconde e com ele leva a alegria da luz e o brilho de um olhar sozinho.
Quando nasce o dia e se abrem as pestanas, solta-se o sorriso ensonado e molengão de quem rebola mais uma vez no leito e se tapa, como se jogasse às escondidas com o sol. O quente a bater na cara, a aquecer a alma, e preencher o espaço do quarto, a esconder-se por baixo dos lençóis assim que te distrais e levantas distraída o lençol tom de rosa. Diziam os antigos: "O frio também tem frio!", e é talvez por isso que ele se enfia dentro dos lençóis quando tem espaço para se esgueirar.
É como tu, que te esgueiras para a cama, te rebolas e espreguiças, que sonhas e sorris quando o sol te beija a cara de manhã.
Escorregas por entre os dedos das mãos como foge a água quando a tentas agarrar. Fria como a água, e transparente como sempre foste, cheiras a mar, danças como as ondas e brilhas quando o sol chega a ti.
Murmuras por entre a espuma, segredos que só tu sabes, trauteias canções de sempre numa memória onde te moves. Só tu conheces os refrões como ninguém, só tu reconheces as melodias com que sonhas, só tu podes cantar a tua vida, mas em playback, porque mais ninguém te pode ouvir.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

sempre soubeste...

Pára. Pára de correr de um lado para o outro. Pára de fugir ao tempo. Pára de viver isto e aquilo. Pára. Pára. Pára. Estás cansada. Estás exausta de pôr e tirar, organizar e desarrumar, orientar e perder. Pára de procurar a vertigem. Pára.
Este baloiço não te vai levar a lado algum. Vais andar entretida no vai-vém, sem olhar para trás, a sorrir com o vento a bater-te na cara e a esquecer-te que um dia vais ter de parar.
Pára de querer chegar a todo o lado, senta-te. Descansa. Respira. E escolhe.
Escolhe o caminho que te fizer feliz, escolhe se viras para aqui ou vais para ali, escolhe se queres ser tu ou outra coisa qualquer.
Um dia li que a única forma de seres realmente alguma coisa é nunca quereres ser tudo ao mesmo tempo.
Procura a essência da vida, pesquisa o mundo que te pertence, ambiciona crescer a cada dia que passa, mas não percas o norte, não fiques no meio, não baloices entre o agora e o depois. A vida não é dia sim, dia não, já to tinha dito.

terça-feira, 10 de junho de 2008

ensosso ou insonso?

Às vezes olho para trás e não sei que pensar...todas as aventuras, todos os minutos bem passados, os que correram mal, as pessoas que conheci, as opções que tomei, as músicas que ouvi, as canções que cantei...tudo o que me constitui como pessoa, me completa e me constrói, são simplesmente as minhas opções, ou pelo contrário serão os presentes que a vida me ofereceu?
Quantas vezes deixei arrastar decisões, para que os outros as tomassem por mim, quantas vezes deixei de fazer algo, à espera que a vida se encarregasse de tal fardo?
No dia em que pensei que a minha vida ia acabar, senti-me sem forças, não gritei, não fugi, não bati com a porta...minha querida mãe, que me ajudaste nessa noite que parecia não ter fim! No dia seguinte, e daí para a frente, tudo mudou. Terei perdido o respeito pelos outros, terei eu desorganizado os padrões do certo e do errado, que culpa tenho eu de ter sofrido?
Um dia deito a cabeça no teu colo e conto-te tudo, ou talvez não seja preciso. As razões são de cada um, e o que valem para mim, não valem para o vizinho...
De vez em quando somos chamados à razão, e de repente, eu caí nas minhas e tu ficaste com as tuas...ter-nos-emos desencontrado? Estradas paralelas, bifurcações e cruzamentos, tudo isto numa vida cheia de caminhos errantes e desviados de sentido, não de sentimento.
Vale a pena pensar em tudo? Vale a pena tentar compreender e encaixotar a vida, como se fôssemos mudar de casa? Vale a pena equacionar os momentos, quando o tempo não é equacionável? Vale a pena etiquetar momentos, para sentirmos o arquivo organizado?
Ortega y Gasset dizia: "Eu sou eu e a minha circunstância". Cada um de nós tem os seus ingredientes, e é por isso que somos tão diferentes, tão misteriosos, tão mágicos. Eu posso ter o sal que te falta, tu podes ter a pimenta que me preenche... A vida que construí, tantas vezes sem querer, é tudo o que tenho, neste momento, aqui e agora. Amanhã talvez seja dia de ir ao supermercado...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

doce fim de tarde

Ironia das ironias...no fundo, a viagem foi mais longa, mais profunda.
Entre os kms que percorremos e o caminho que o coração percorre, caminhamos sem sacrifício durante horas, sem cansaço e com esperança. Caminhamos acompanhados pelo amor, com a força da segurança e sem pressa de chegar. Tem sido longo, este trajecto. Tem sido suavemente cada vez melhor. Abandonamos devagar, a cada segundo que passa a casa de antes, já sem olhar para trás. Com passos lentos, seguros, pensados, convictos de que lá fora está sol.
Espreitamos à janela e vemos as flores nascerem, vemos a relva a chamar por nós, e o mar à nossa espera. Não queremos correr, não queremos tropeçar, não queremos hesitar. Trazemos connosco um sorriso secreto, trazemos na alma a vontade de apanhar ar, o desejo de ver o mundo e a força de acreditar.
Já houve tempo de parar, já houve horas de querer ficar, já houve alturas de querer voltar. Hoje vamos para a rua, gritar, como diz o poeta, vamos passear. Ainda aqui estou e já vou tão longe...
E porque não paramos? Porque não descansamos? Porque não atestamos? Porque continuamos? Porque a vontade de seguir nos empurra. Porque as nossas pernas caminham sozinhas, porque o vento nos leva e não nos traz...Porque só a viver somos felizes.
E só se completa o puzzle quando encaixamos a última peça, por muito que já soubéssemos qual seria a imagem final. Porque o desenho da caixa não tira o prazer da construção, porque os percursos são apaixonantes.
Porque a conquista é uma batalha onde não se ataca, apenas nos rendemos. Tréguas. Ganhaste.