Antes de mais, eu sou eu. Já chega de vontades emprestadas, conclusões que são de outros, estados de alma da feira e espaços partilhados. Chega para lá, preciso de espaço, tira isso do caminho, desvia aquilo e puxa isto. Numa azáfama de enquadramento, num desejo de sobreviver, andamos às turras, sem coragem de nos afastarmos. Ontem e hoje foi assim, num suspiro incontrolado, inegável a absurdo.
As coisas têm para nós o valor que lhes dermos, têm para nós a importância que lhes oferecemos e têm para nós a beleza que lhes pintamos.
Como um artista cria a obra, nós criamos a nossa vida, em nosso redor, os nossos gostos, as nossas companhias, e fazemos do nosso mundo a mais linda e cristalina cascata do Niagara. Devemos tratá-la com uma preciosidade, um tesouro que nos foi concedido e que devemos preservar, cultivar, proteger, e guardar. Mas se guardarmos todos os tesouros que temos, não vivemos nenhum, não usufruímos de o ter, não partilhamos com quem gostamos, não fazemos ninguém feliz para além de nós próprios. Então, não será melhor deixar a descoberto o tesouro, vivê-lo, gastá-lo, partilhá-lo? De que me serve a vida se não a viver? De quem me serve o amor, se não o posso sentir? De que me serve ter a chave, se estou proibida de entrar?
Já não há regras para nada, não há receitas ou prazos de validade. Tudo vai e volta à velocidade do vento, tudo muda e se transforma sem que nos apercebamos do que realmente se passa. Hoje um sentimento, amanhã uma dúvida, ontem era certeza, para o ano será memória. Ou não. Quem sabe hoje se amanhã é melhor? Quem sabe hoje se amanhã é diferente, sequer? Eu não sei. E não sei se quero saber. O controle total sobre o futuro tornaria a vida monótona, previsível, sem paixão, nem desafio. Deixaríamos de poder sentir um cheiro como se fosse a primeira vez que mergulhássemos juntos, deixaríamos de poder olhar uma surpresa com o espanto de quem nunca viu, deixaríamos de colher gargalhadas espontâneas nas esquinas dos amigos no café. Porque tudo era sabido, nada teria graça. E é por isso, por estes motivos que somos pequenos aos olhos do mundo, mas somos grandes, por termos a capacidade de nos apaixonar. Porque quando nos apaixonamos, nada do que está aqui escrito tem importância ou tem valor, pois tudo o que interessa é substancialmente maior que estas ninharias.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
hoje as palavras estão gastas
Acabaram-se as palavras, pouco resta para dizer. Ideia de um poema de amor, pela escrita de Eugénio de Andrade, presente em praticamente todas as colectâneas de poemas de amor deste país. As que descansam em estantes modernas, e as que correm mundo, nos corações de quem se lembra de ter amado um dia essas mesmas palavras.
Hoje seca a garganta, nascem suspiros do fundo do corpo, até as teclas já parecem gastas. Vista turva, falta de foco, sintomas de alguém que não sabe o que quer e se quer. Mês de Agosto, mês de férias, férias de nós próprios e de tudo o que nos compõe. Desleixe fácil, inerte, de quem se arrasta entre a cama e o sofá, a praia e o café. Assaltam-se bancos, nascem pessoas, come-se e dorme-se em todo o mundo.
Apenas aqui, nesta caixa forte, tudo se mantém conservado, imutável, frio. Por vezes, uma sopa quente e uma boa noite de sono resolvem impasses que nem os analgésicos sonham em curar. Chama-se mimo, à saudade de si próprio, à vontade de ter perto de nós quem ou o que nos aqueça, seja uma sopa, ou um abraço. Há pouco, restava uma sopa no frigorífico, à espera de alguém que não vive sem calor emocional, sem amor pelos legumes, sem umas meias quentes em noites de inverno.
Levantas-te e vais tratar de ti. Acordas e procuras viver. Sais e inicias viagem. Agora e sempre, é sempre tempo de andar para a frente, que atrás vem gente. A marcha dos desalinhados segue o rumo diário, mas tu foges, e sais do percurso pré-traçado, vives uma aventura só tua, e ficas sem saber se hás-de voltar, ou sair para sempre do pelotão. Quem sabe, não és tu próprio o comandante da tua vida, quem sabe as decisões que tomas não são simples opções, mas antes elas carregam sobre ti a responsabilidade, o poder. Cada uma das nossas escolhas traz-nos experiências que nos dão a ver que não somos criaturas tão pequenas como parecemos.
Mas desenganem-se os tolos: não somos heróis. Não caminhamos sempre sozinhos, não decidimos sempre sem influências, não amamos sempre sem ser amados. Somos parte de tudo, tu és parte de alguém, alguém há-se ser parte de outro alguém, numa rede tão complexa, interminável e replecta de enleios indesembaraçáveis. E é indesembaraçável que caíu hoje o sol, cresceu a lua, e aqui, na caixa forte, tudo na mesma, sem sentidos, porque hoje as palavras estão gastas. Adeus.
Hoje seca a garganta, nascem suspiros do fundo do corpo, até as teclas já parecem gastas. Vista turva, falta de foco, sintomas de alguém que não sabe o que quer e se quer. Mês de Agosto, mês de férias, férias de nós próprios e de tudo o que nos compõe. Desleixe fácil, inerte, de quem se arrasta entre a cama e o sofá, a praia e o café. Assaltam-se bancos, nascem pessoas, come-se e dorme-se em todo o mundo.
Apenas aqui, nesta caixa forte, tudo se mantém conservado, imutável, frio. Por vezes, uma sopa quente e uma boa noite de sono resolvem impasses que nem os analgésicos sonham em curar. Chama-se mimo, à saudade de si próprio, à vontade de ter perto de nós quem ou o que nos aqueça, seja uma sopa, ou um abraço. Há pouco, restava uma sopa no frigorífico, à espera de alguém que não vive sem calor emocional, sem amor pelos legumes, sem umas meias quentes em noites de inverno.
Levantas-te e vais tratar de ti. Acordas e procuras viver. Sais e inicias viagem. Agora e sempre, é sempre tempo de andar para a frente, que atrás vem gente. A marcha dos desalinhados segue o rumo diário, mas tu foges, e sais do percurso pré-traçado, vives uma aventura só tua, e ficas sem saber se hás-de voltar, ou sair para sempre do pelotão. Quem sabe, não és tu próprio o comandante da tua vida, quem sabe as decisões que tomas não são simples opções, mas antes elas carregam sobre ti a responsabilidade, o poder. Cada uma das nossas escolhas traz-nos experiências que nos dão a ver que não somos criaturas tão pequenas como parecemos.
Mas desenganem-se os tolos: não somos heróis. Não caminhamos sempre sozinhos, não decidimos sempre sem influências, não amamos sempre sem ser amados. Somos parte de tudo, tu és parte de alguém, alguém há-se ser parte de outro alguém, numa rede tão complexa, interminável e replecta de enleios indesembaraçáveis. E é indesembaraçável que caíu hoje o sol, cresceu a lua, e aqui, na caixa forte, tudo na mesma, sem sentidos, porque hoje as palavras estão gastas. Adeus.
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os meus textos
sábado, 2 de agosto de 2008
correntes de ar
Corre uma aragem fresca...saudável, esperada. Atravessa os livros esquecidos, lava prateleiras de recordações, destapa forografias antigas, leva consigo o cheiro da vela vermelha. Leva tanto e traz tão pouco. O suficiente para respirar melhor, na solidão cheia de coisas várias, baralhada e ofegante, capaz de rebentar e aguentar.
Passa o tempo e a brisa torna-se desconfortável, fresca demais, arrepiante, desconfortável. Fecha-se a janela, e lá fora, ao subir o estore, deslumbra-se um céu de um cor-de-rosa fascinante, vistoso, brilhante. Pára o tempo, fixa-se o olhar, cai uma lágrima tímida, de uma especial saudade secreta.
Estará, quem sabe, na altura de abandonar crenças em super-heróis desinteressados. Estará, provavelmente, na hora de desligar o botão da poesia, do ideal romântico, culto, e erudito. Estará, com certeza, a chegar o tempo de enfrentar o eternamente adiando, passo a passo, com confiança e sem olhar para trás. Estará, talvez, na hora de abrir de novo a janela...
Passa o tempo e a brisa torna-se desconfortável, fresca demais, arrepiante, desconfortável. Fecha-se a janela, e lá fora, ao subir o estore, deslumbra-se um céu de um cor-de-rosa fascinante, vistoso, brilhante. Pára o tempo, fixa-se o olhar, cai uma lágrima tímida, de uma especial saudade secreta.
Estará, quem sabe, na altura de abandonar crenças em super-heróis desinteressados. Estará, provavelmente, na hora de desligar o botão da poesia, do ideal romântico, culto, e erudito. Estará, com certeza, a chegar o tempo de enfrentar o eternamente adiando, passo a passo, com confiança e sem olhar para trás. Estará, talvez, na hora de abrir de novo a janela...
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
música
"A vida sem música seria um erro."
Nietzche
Entendo por música a dança dos sons, organizada, melódica, harmoniosa, efémera. Teleférico da alma, transporta em viagens longas e vibrantes o que conseguimos soltar. Acorda a imaginação, traz consigo imagens que cheiram a paz. Leva por caminhos verdes a memória do cérebro adormecido, enche de corpo o espaço que é nosso. A banda sonora da vida preenche o que as palavras não dizem, povoa o ar com aromas de sensações mal explicadas, afirma a ausência de querer, numa fuga conduzida por sons. Faz apetecer participar, dançar, soltar, rodopiar, ou simplesmente levitar. Quem dança vive a música, experimenta os sentidos do corpo, atravessa anos luz de coisas pequenas, ultrapassa o sentido da vida e torna-se imortal. Viver a música, senti-la, tocá-la, dançá-la, transporta para uma quinta dimensão o mundo terreno, pois a inteligibilidade é feita pelos trilhos da alma. Faz bater o coração, faz arrumar o ritmo, faz pulsar o que de mais íntimo temos para dar. Provoca personagens, provoca sentimentos, provoca lágrimas, por vezes. Caímos num mundo mágico que não se escreve, que não se vê, que só se sente e nos faz felizes.
A música aquece o espaço, como uma lareira aquece o ambiente frio, numa casa da montanha. Preenche o corpo, como um cachecol de riscas coloridas que cai sobre os ombros num fim de tarde de chuva, invernoso. Alimenta a alma, como as paisagens verdes dos parques naturais, estimula o Homem, como um olhar brilhante e um sorriso honesto, antecedem um abraço dos bons, daqueles.
A vida é para ser vivida com ousadia, com amor, com paixão, com conforto emocional, com música, com dança, com sabor, com risco, com sorrisos, com abraços, com cumplicidade, connosco, contigo.
Nietzche
Entendo por música a dança dos sons, organizada, melódica, harmoniosa, efémera. Teleférico da alma, transporta em viagens longas e vibrantes o que conseguimos soltar. Acorda a imaginação, traz consigo imagens que cheiram a paz. Leva por caminhos verdes a memória do cérebro adormecido, enche de corpo o espaço que é nosso. A banda sonora da vida preenche o que as palavras não dizem, povoa o ar com aromas de sensações mal explicadas, afirma a ausência de querer, numa fuga conduzida por sons. Faz apetecer participar, dançar, soltar, rodopiar, ou simplesmente levitar. Quem dança vive a música, experimenta os sentidos do corpo, atravessa anos luz de coisas pequenas, ultrapassa o sentido da vida e torna-se imortal. Viver a música, senti-la, tocá-la, dançá-la, transporta para uma quinta dimensão o mundo terreno, pois a inteligibilidade é feita pelos trilhos da alma. Faz bater o coração, faz arrumar o ritmo, faz pulsar o que de mais íntimo temos para dar. Provoca personagens, provoca sentimentos, provoca lágrimas, por vezes. Caímos num mundo mágico que não se escreve, que não se vê, que só se sente e nos faz felizes.
A música aquece o espaço, como uma lareira aquece o ambiente frio, numa casa da montanha. Preenche o corpo, como um cachecol de riscas coloridas que cai sobre os ombros num fim de tarde de chuva, invernoso. Alimenta a alma, como as paisagens verdes dos parques naturais, estimula o Homem, como um olhar brilhante e um sorriso honesto, antecedem um abraço dos bons, daqueles.
A vida é para ser vivida com ousadia, com amor, com paixão, com conforto emocional, com música, com dança, com sabor, com risco, com sorrisos, com abraços, com cumplicidade, connosco, contigo.
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