quinta-feira, 7 de agosto de 2008

hoje as palavras estão gastas

Acabaram-se as palavras, pouco resta para dizer. Ideia de um poema de amor, pela escrita de Eugénio de Andrade, presente em praticamente todas as colectâneas de poemas de amor deste país. As que descansam em estantes modernas, e as que correm mundo, nos corações de quem se lembra de ter amado um dia essas mesmas palavras.
Hoje seca a garganta, nascem suspiros do fundo do corpo, até as teclas já parecem gastas. Vista turva, falta de foco, sintomas de alguém que não sabe o que quer e se quer. Mês de Agosto, mês de férias, férias de nós próprios e de tudo o que nos compõe. Desleixe fácil, inerte, de quem se arrasta entre a cama e o sofá, a praia e o café. Assaltam-se bancos, nascem pessoas, come-se e dorme-se em todo o mundo.
Apenas aqui, nesta caixa forte, tudo se mantém conservado, imutável, frio. Por vezes, uma sopa quente e uma boa noite de sono resolvem impasses que nem os analgésicos sonham em curar. Chama-se mimo, à saudade de si próprio, à vontade de ter perto de nós quem ou o que nos aqueça, seja uma sopa, ou um abraço. Há pouco, restava uma sopa no frigorífico, à espera de alguém que não vive sem calor emocional, sem amor pelos legumes, sem umas meias quentes em noites de inverno.
Levantas-te e vais tratar de ti. Acordas e procuras viver. Sais e inicias viagem. Agora e sempre, é sempre tempo de andar para a frente, que atrás vem gente. A marcha dos desalinhados segue o rumo diário, mas tu foges, e sais do percurso pré-traçado, vives uma aventura só tua, e ficas sem saber se hás-de voltar, ou sair para sempre do pelotão. Quem sabe, não és tu próprio o comandante da tua vida, quem sabe as decisões que tomas não são simples opções, mas antes elas carregam sobre ti a responsabilidade, o poder. Cada uma das nossas escolhas traz-nos experiências que nos dão a ver que não somos criaturas tão pequenas como parecemos.
Mas desenganem-se os tolos: não somos heróis. Não caminhamos sempre sozinhos, não decidimos sempre sem influências, não amamos sempre sem ser amados. Somos parte de tudo, tu és parte de alguém, alguém há-se ser parte de outro alguém, numa rede tão complexa, interminável e replecta de enleios indesembaraçáveis. E é indesembaraçável que caíu hoje o sol, cresceu a lua, e aqui, na caixa forte, tudo na mesma, sem sentidos, porque hoje as palavras estão gastas. Adeus.

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