Cá estou eu de novo. A medo, aproximo-me da porta, sinto o coração pequenino, apertado, ensanguentado, tremem os joelhos marotos, vacilam os dedos das mãos, enquanto procuro a chave, no momento que antecede a minha entrada. Ainda não tenho a certeza de querer voltar a entrar, ainda não sei o que me espera por trás da porta, não consigo antever pelo pequeno buraco o que me espera, e hesito. Suspiro fundo, está na hora de abrir, desvendar, desbravar terreno e voltar a entrar em mim. Volto a sentir o cheiro do perigo, do desconhecido, o cheiro que me apaixona, o cheiro da descoberta. Volto a juntar letras na tentativa de que façam sentido, mesmo que eu não entenda que sentido têm. Volto a procurar, organizar, desorganizar, sentir, viver, tremer, sorrir. A vida sem aventura não tem a mesma piada, tu sabes. A vida sem surpresas não preenche, mas também não esvazia. Pelo menos sem avisar... Às vezes ainda penso se deveria cá voltar, mas, mesmo que este rentrée não corra bem, o improviso tomará conta de mim, e lá arranjarei maneira de me desenrascar.
Meto a chave à porta, ouço o ranger da fechadura, no silêncio que tomou parte do mundo. Range como rangem as portas antigas, com muito uso, de madeira velha com a tinta a estalar. Parece que vou entrar no velho sótão, recheado de boas memórias e outras más. Ouço finalmente o "clik" do dente da fechadura, que segurava a porta fechada e me mentinha protegida deste amontoado de memórias que vou encontrar, e quem sabe, reviver. Pela primeira fresta da porta, logo aparece a luz do outro lado, que me invade a cara e me faz cerrar os olhos. Que estranheza esta de voltar aqui, ao meu abrigo, ao meu castigo. Este cantinho de mundo sou eu mesma, eu própria, a minha pessoa em estado antigo e de cor sépia. Passa o tempo e nada muda, continuo emotiva, apaixonada, rebelde, desassossegada, curiosa. Pareço uma miúda que está a viver tudo pela primeira vez, quando as coisas ganham dimensões que as atiram para o baú dos segredos e para as memórias individuais.
Alguém deixou a janela aberta. Devo ter sido eu. Talvez porque quando saí não quisesse sair, nem fechar tudo. Nem trancar o passado ou as palavras. Não queria demorar tanto, mas não sabia quando voltava. Devo ter feito bem, em deixar a janela aberta, para que tudo pudesse respirar, desempoeirar, renovar, envelhecer. Passa por mim o vento enquanto faço força e cerro os dentes para abrir a porta pesada e sem óleo. Levanta-me o cabelo como se fosse a andar de mota, sem capacete, o que normalmente dá multa. E não dará multa também andar a vasculhar no meu próprio mundo? E se as minhas memórias me quiserem processar, por invasão da sua privacidade? Sai um pé à frente do outro, cuidadosos os dois, silenciosos, espantados. Ao fundo ouve-se a música, baixinha, de uma memória feliz que teima em não adormecer, em não envelhecer, em não se calar. Resistente, combatente, densa, recente, cá está ela, a sorrir-me como se eu nunca tivesse saído daqui, como se nunca a tivesse querido guardar e calar, no meu sótão secreto. Canta alto esta melodia. Tapei os ouvidos, mas ainda a consegui ouvir. Fechei bem a porta, mas ainda a conseguia ouvir. Tranquei com a chave, mas ainda a conseguia ouvir. Fugi deste sótão, mas ainda a conseguia ouvir. Chegou a mim e conduziu-me entre pirouettes e pequenos saltos até ela, pois tinha um segredo para me contar... e quando cheguei ao pé dela, sussurrou-me ao ouvido: "Sabes...eu gosto muito de ti...". E eu fiquei.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
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